UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

31 de março de 2011

TOP-TEN WESTERNS DE A.C. GOMES DE MATTOS

Antônio Carlos Gomes de Mattos é Professor de História do Cinema na PUC-RJ, autor de vários livros sobre a 7.ª Arte, entre eles "Publique-se a Lenda: A História do Western", colaborador das inesquecíveis bíblias cinematográficas que foram "Guia da Filmes" e "Filme Cultura" do Instituto Nacional de Cinema, nos anos 60/70 e ainda um dos principais colaboradores da saudosa revista "Cinemin" nos anos 80. Pois, A. C. Gomes de Mattos, numa deferência toda especial para o Cinewesternmania, relacionou os dez melhores westerns de todos os tempos, que são estes:

 1 - Rastros de Ódio (The Searchers) - John Ford - 1956
 2 - O Preço de um Homem (The Naked Spurs) - Anthony Mann - 1953
 3 - Paixão dos Fortes (My Darling Clementine) - John Ford - 1946
 4 - Winchester 73 (Winchester '73) - Anthony Mann - 1950
 5 - Onde Começa o Inferno (Rio Bravo) - Howard Hawks - 1959
 6 - O Homem que Luta Só (Ride Lonesome) - Budd Boetticher - 1959
 7 - Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country) - Sam Peckinpah - 1962
 8 - Um Certo Capitão Lockhart (The Man from Laramie) - Anthony Mann - 1955
 9 - Cavalgada Trágica (Comanche Station) - Budd Boetticher - 1960
10 - Sete Homens sem Destino (Seven Men from Now) - Budd Boetticher - 1956

"Winchester 73", um dos westerns preferidos de A.C. Gomes de Mattos

AS GRANDES QUADRILHAS DOS WESTERNS - "VERA CRUZ"

"Vera Cuz" é um western espetacular em todos os aspectos. Mas um aspecto que chama a atenção é a quadrilha que se junta aos aventureiros Ben Trane (Gary Cooper) e Joe Erin (Burt Lancaster). Três dos bandidos dessa quadrilha iriam se tornar um trio de atores muitíssimo famoso e querido no cinema: Jack Elam, Ernest Borgnine e Charles Bronson, vistos juntos no clássico e influente filme de Robert Aldrich. E no elenco de "Vera Cruz" há ainda outros notórios outlaws do cinema como Jack Lambert, Charles Horvath, Morris Ankrum e porque não, George MacReady, Henry Brandon e Cesar Romero (o Charada, inimigo do Batman). Uma pergunta difícil de ser respondida é: Quantas vezes Elam, Borgnine e Bronson morreram sob as balas dos mocinhos dos filmes...

DESBRAVANDO O OESTE (The Way West), FILME À SOMBRA DO MESTRE JOHN FORD

Cada gênero cinematográfico teve, ao longo da história do cinema, seus clássicos, alguns deles reconhecidas obras-primas do cinema. Cada gênero teve seus principais diretores que praticamente contam-se nos dedos de uma mão. É assim com os musicais, com os filmes policiais (noir incluídos), comédias, melodramas e até os épicos. No gênero western enquadram-se entre os grandes diretores, identificados pelos clássicos que filmaram, Anthony Mann, John Sturges, Sam Peckinpah, Budd Boetticher e Howard Hawks. Acima de todos paira John Ford. Se a intenção for polemizar poderiam entrar nessa relação Sérgio Leone, Raoul Walsh e Henry Hathaway. E fecha-se a lista. Assim é o cinema, as artes em geral, os esportes e a própria vida. Nem todos podem ter o mesmo talento e a mesma inspiração. Quando muito, pode-se ter as mesmas condições de trabalho, no caso do cinema, atores e técnicos. Por que então exigirmos que todos os diretores de westerns os façam com a mesma qualidade? Todo esse intróito foi escrito lembrando o que os críticos, entre eles Rubens Ewald Filho, pensavam a respeito de Andrew V. McLaglen: um diretor de western sem talento e que perseverou no gênero fazendo filmes quase todos eles medíocres. De fato, Andrew V. McLaglen dirigiu uma dúzia de westerns sem que nenhum deles se tornasse um clássico. Chegou perto disso com “Shenandoah”, mas quando os mestres do gênero já estavam se aposentando, McLaglen dirigiu westerns apreciáveis como “Os Renegados” (Something Big) e “O Preço de um Covarde” (Bandolero) e as comédias “Quando um Homem é Homem” (McLintock!), “Raça Brava” (The Rare Breed) e “A Indomável” (The Ballad of Josie). Andrew V. Mclaglen sempre foi acusado de imitar o estilo de John Ford e provavelmente o melhor exemplo dessa tentativa foi com “Desbravando o Oeste” (The Way West), de 1967. A partir do livro “The Way West”, de autoria de A.B. Guthrie Jr. (roteirista de “Shane”), premiado com o Pulitzer e participação também de Ben Maddow (roteirista de “Johnny Guitar”) no script, “Desbravando o Oeste” conta a saga de famílias que partem em direção ao Oregon.

Uma das maravilhosas sequências fotografadas por William Clothier
No caminho enfrentam toda sorte de perigos, desde Sioux atrás de água de fogo (whiskey), deserto interminável, rios e montanhas difíceis de transpor. Além disso há o convívio prolongado das centenas de pessoas da caravana originando não só amizade mas também cobiça, paixões e ódio. E fica-se a imaginar o que Ford faria com esses temas, ainda mais contando com a magnífica cinematografia de William Clothier. Pois McLaglen não decepcionou e conta a história de maneira envolvente, ainda que sem aquele toque poético que Ford melhor que ninguém era capaz de dar a cada situação que surge durante a longa caminhada da caravana. Do excelente elenco reunido destaca-se Robert Mitchum como o indolente guia da caravana que só abandona sua habitual apatia quando se trata de salvar vidas. Kirk Douglas é um ex-senador visionário que lidera com sadismo a empreitada. Richard Widmark um fazendeiro que se deixa contaminar pelo espírito de aventura da conquista da terra prometida. Ambos bastante bem mas Bob Mitchum é quem vence a luta surda entre os três grandes atores. Jack Elam rouba todas as cenas em que participa como um irreverente pregador. O elenco feminino tem Lola Albright e Sally Fields em seu primeiro filme, cada qual despertando a líbido masculina na longa jornada. Um envelhecido Harry Carey Jr. é uma lembrança inequívoca de “Caravana de Bravos” (Wagonmaster), de John Ford, enquanto Roy Barcroft e Peggy Stewart são carinhosas lembranças da Republic Pictures. Stubby Kaye, Patric Knowles e Nick Cravat também têm participações em meio a um numeroso elenco. Nick Cravat, por sinal, tem uma única fala no filme, muito mais que quando acompanhava Burt Lancaster. É mais que hora de fazermos justiça a Andrew V. McLaglen, um cineasta que se não foi tão bom quanto queríamos que ele fosse, pelo menos nos contemplou com inúmeros westerns quando estes começavam a escassear, até chegarmos à seca que são os tempos atuais.

A ABSURDA MORTE DE REX ALLEN

Rex Allen foi um dos mais queridos cowboys dos B-Westerns. Rex pertenceu ao seleto grupo dos mocinhos contratados pela Republic, tendo como colegas naquele estúdio Roy Rogers, Rocky Lane, Bill Elliott, ou seja, alguns dos maiores ídolos das saudosas matinês dominicais dos anos 40 e 50. Apelidado de “O Cowboy do Arizona”, Rex Allen era simpático, tinha bela voz e trajava-se com apurada elegância, brilhando intensamente nas telas montando Koko, seu inteligente cavalo. Seus westerns tinham muita ação com lutas emocionantes e cavalgadas vibrantes. Lamentavelmente Rex Allen surgiu nos estertores das séries dos pequenos faroestes, podendo-se dizer que foi, de fato, “The Last of the Silver Screen Cowboys”, como diz um de suas mais bem conhecidas gravações. Tivesse ele iniciado sua carreira dez anos anos e certamente Roy Rogers teria que lutar muito para superar Rex Allen na preferência da garotada como o Rei dos Cowboys. Assistir aos filmes de Rex Allen e lembrar dele é sempre uma alegria. Porém lembrar da forma absurda como Rex faleceu, em 17 de dezembro de 1999, poucos dias antes de completar 79 anos de idade, causa enorme consternação. Rex estava em seu rancho, em Tucson, Arizona, quando sofreu um enfarte. Tivesse sido socorrido imediatamente poderia ter sobrevivido, porém Rex ficou caído no chão e um empregado seu que manobrava uma pick-up não observou o veterano cowboy estirado no chão, passando com o pesado veículo sobre o corpo inerte de Rex Allen e causando sua morte. Foi o final triste da vida de um artista que por mais de 50 anos levou alegria aos fãs da música e do gênero western.

HENRY BRANDON, O SINISTRO DR. FU MANCHU

Quem diria que o amedrontador Cicatriz de “Rastros de Ódio” começou no cinema numa comédia do Gordo & Magro. Isso ocorreu, em 1934, já como bandidão, ameaçando Ollie e Stan em “Era uma vez Dois Valentes” (Babies in Toyland). E também poucos poderiam supor que aquele jovem ator de 22 anos, alemão de nascimento, se tornaria um dos grandes vilões da tela. Para isso acontecer teve que mudar seu nome verdadeiro que era Heinrich Von Kleinbach adotando o nome artístico de Henry Brandon, muito mais fácil de ser gravado pelos fãs. Nascido em Berlin, em 1912, seus pais imigraram para os Estados Unidos antes mesmo de Henrich começar a andar. Bem cedo Brandon se decidiu pela carreira de ator e ganharia grande destaque criando o personagem 'Dr. Fu Manchu' no seriado “Os Tambores de Fu Manchu”, de 1940, que fez enorme sucesso entre a garotada que vibrava com os filmes em episódios. Antes de protagonizar Fu Manchu, Brandon atuou como coadjuvante nos seriados “Jim das Selvas” (com Grant Withers, Brandon era O Cobra), “Agente Secreto X-9” (com Scott Kolk, Brandon era Blackstone) e “Buck Rogers” (com o ‘Rei dos Seriados’ Larry Buster Crabbe, Brandon era o Capitão Laska). Nesse período apareceu em alguns filmes importantes, entre eles “Amor e Ódio na Floresta” (The Trail of the Lonesome Pine), com Henry Fonda; “O Jardim de Alá”, com Marlene Dietrich; “Uma Nação em Marcha” (Wells Fargo), com Joel McCrea; “Beau Geste”, com Gary Cooper; “O Filho de Monte Cristo”, com Louis Hayward. O sucesso de “Os Tambores de Fu manchu” foi tamanho que foi anunciado que haveria uma continuação, o que deixou as crianças alvoroçadas em grande expectativa. Mas essa sequência nunca aconteceu e a carreira de Henry Brandon limitou-se a papéis secundários que ele intercalava com atuações no teatro que ele amava até mais que o cinema. Com 1,96 de altura, o que incomodava os galãs menores e com sua forte feição germânica, Henry Brandon interpretou não só alemães, mas também orientais, asiáticos, europeus em geral, nativos africanos e norte-americanos. O grande problema dessa versatilidade é que ficou estigmatizado como ator multi-racial e somente no palco é que conseguia demonstrar o excelente intérprete que era, especialmente em tragédias gregas como “Medéia”, em que como ‘Jason’ atuou ao lado de Judith Anderson.


Mas grandes papéis estavam reservados para a carreira de Henry Brandon e um deles foi no espetacular faroeste “Vera Cruz”, de 1954, em que interpretou o refinado e irritadiço Capitão Danette, em memorável cena com Burt Lancaster, na recepção no palácio do Imperador Maximiliano. Em sua longa carreira Henry Brandon interpretou por 26 vezes índios de quase todas as tribos indígenas norte-americanas, mas foi como o comanche Cicatriz (Scar) que se imortalizaria, sendo para sempre lembrado como o mais sinistro índio dos faroestes, em “Rastros de Ódio”. A sombra de Cicatriz projetada sobre a lápide onde estava escondida a pequena Debbie é imagem indelével e assustadora criada por John Ford. E a cada aparição de Cicatriz na tela aumentava a tensão desse grande western. A partir daí Henry Brandon atuaria exaustivamente, nunca lhe faltando trabalho, seja no cinema ou na TV. Repetiria um papel de chefe índio (Quanah Parker), sob a direção de John Ford em “Terra Bruta”, em 1961. Próximo do final de sua carreira seria visto como oficial nazista em “Sou ou não Sou”, de Mel Brooks, em 1983. Henry Brandon, que nunca foi casado, manteve duradoura amizade com Mark Herron, ator que chegou a ser casado com Judy Garland. Henry faleceu em 1990, aos 77 anos, permanecendo para sempre na memória dos cinéfilos como um daqueles vilões que gostávamos muito de odiar.

30 de março de 2011

"MAJOR DUNDEE", O APOCALÍPSE DE SAM PECKINPAH

Já houve quem dissesse que o making-of de “Apocalypse Now”, rodado por Eleanor Coppola (“Francis Ford Coppola – O Apocalipse de um Cineasta”) é até melhor que o premiado filme do diretor da trilogia “O Poderoso Chefão”. Uma pena que não houvesse sido feito também um making-of durante a rodagem de “Juramento de Vingança” (Major Dundee), dirigido por Sam Peckinpah. Após o sucesso de “Pistoleiros do Entardecer”, o conceito de Sam subiu muito em Hollywood, sendo ele saudado como um novo John Ford. A Columbia não perdeu tempo e colocou muito dinheiro, seus melhores técnicos e um elenco de alto nível nas mãos de Peckinpah para a nova produção que Sam exigiu fosse rodada no México, "Juramento de Vingança". Mas não demorou muito para Sam começar a criar problemas de toda ordem. Inicialmente despediu o roteirista Harry Julian Fink, substituindo-o por Oscar Saul que reescreveu todo roteiro ao lado de Peckinpah. A cada dia de filmagem Sam encontrava nova vítima para seu descontrole emocional e verbal e após xingar o infeliz com os piores palavrões, acabava por demiti-lo. Foram 15 técnicos demitidos, no total. Disposto a domar o irrequieto diretor, o produtor Jerry Bresler apareceu nas locações em Durango tentando interferir e ouviu de Peckinpah: “Não rodo um palmo de filme se você não colocar sua bunda no próximo avião e voltar para seu escritório em Los Angeles.” Bresler obedeceu, mas dias depois retornou acompanhado da alta cúpula da Columbia. Encontraram Peckinpah sem camisa, usando uma bandana num cenário verdadeiramente de guerra. Sam repetiu para eles o que dissera a Jerry Bresler mas teve como resposta do vice-presidente da Columbia: “Então você está demitido e fora de “Major Dundee!” Não contavam os homens de terno e gravata que Charlton Heston com sua poderosa voz, lembrando Moisés no alto do Monte Sinai, declarasse: “Se Sam sair deste filme eu também saio!” Atrás de Heston ouviram-se as vozes de Richard Harris, James Coburn, Warren Oates, L.Q. Jones, R.G. Armstrong, Ben Johnson e Slim Pickens declararem: “E nós também sairemos juntos!” Charton Heston foi mais longe e bravateou: “E podem ficar com meu salário pois para ajudar Sam não quero receber nada!” O salário de Heston era de 300 mil dólares, hoje mais de dois milhões de dólares, prontamente aceitos pelos executivos para cobrir os prejuízos do filme. Encurralado, o staff da Columbia teve que se dobrar, ir embora e receber as notícias diárias de uma das mais conturbadas produções que se teve notícia na história de Hollywood.

O temperamental Sam Peckinpah
Ouviram, por exemplo, que durante a filmagem de uma sequência, Peckinpah pediu a Charlton Heston (Major Dundee) que liderasse sua tropa de soldados trotando em direção onde estava Peckinpah e a câmara. Com sua característica educação Peckinpah vociferou: “Ficou uma merda! Você está muito devagar!” Heston replicou: “Mas Sam, você disse que queria a tropa trotando...” E o gigantesco Charlton ouviu de Sam: “Uma porra que eu falei isso. Você é um mentiroso desgraçado!” Heston afastou-se montado em seu cavalo, tomou certa distância, esporeou o animal e partiu com ele em direção a Peckinpah. Este, ao invés de fugir, gritou para o cameraman: “Filma agora, filma agora!!!” E levantou-se de sua cadeira cuja lona onde estava escrito ‘Sam Peckinpah’ foi cortada ao meio pelo sabre de Major Dundee. A cena foi aproveitada, o filme conseguiu ser terminado, não houve a tradicional festa de despedida e Peckinpah ficou marcado como o mais temperamental dos diretores. E “Juramento de Vingança” ficou sem o making-of que certamente seria melhor que o próprio apocalíptico épico dirigido por Sam Peckinpah.

29 de março de 2011

WESTERNS BIZARROS: "BILLY THE KID VERSUS DRACULA"

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William Bonney, mais conhecido por Billy the Kid, já enfrentou no cinema norte-americano muitos mocinhos, bandidos e sheriffs. Enfrentou até mesmo o Conde Drácula no bizarro “Billy the Kid versus Dracula” num western dirigido por William ‘One Shot’ Beaudine. Beaudine tinha esse apelido (tomada única) porque jamais repetia uma cena filmada e era mais rápido que o próprio Billy the Kid. Este filme, por exemplo, foi rodado em apenas oito dias e era uma produção tão barata que o autor do script (Jack Lewis) cobrou apenas 250 dólares pelo roteiro pronto. Inteiramente filmado em Corriganville (Rancho de Ray Corrigan) o elenco contou com atores bastante conhecidos, como John Carradine interpretando o vampiro sem nome, Harry Carey Jr., sua mãe Olive Carey e até mesmo Roy Barcroft, desta vez como sheriff. Billy the Kid foi interpretado por Chuck Courtney, ator que nunca teve maiores oportunidades no cinema. A produção foi tão econômica que não foi usado o nome de 'Dracula' nos diálogos porque não havia dinheiro para pagar os direitos de uso desse nome, direitos pertencentes à Universal Pictures. Assista a um pequeno e emocionante trecho de “Billy the Kid versus Dracula” e você concluirá certamente que esse filme está entre os westerns mais bizarros. Depois ainda dizem que os italianos é que avacalharam com o faroeste...

A DIFÍCIL VIDA DOS DUBLÊS


Atores costumam ficar com as glórias de um filme, além da fama e, é claro, dos melhores salários. E até porque o público vai ao cinema para vê-los e eles consomem a maior parte do orçamento de um filme, os atores são preservados dos perigos que rondam uma filmagem, especialmente se for um western. Nas cenas de maior perigo, nas lutas corpo-a-corpo e nas inevitáveis quedas de cavalos, raramente se vê o ator principal e sim a desconhecida figura do stuntman. Alguns deles tornaram-se mais conhecidos porque participaram de filmes também na condição de atores, caso de Yakima Canutt, Dave Sharpe, Jack Mahoney e a dupla “Bad Chuck” (Chuck Roberson) e “Good Chuck” (Chuck Hayward). Mas de modo geral um stuntman só vira notícia quando sofre um grave acidente, algumas vezes um acidente mortal.

Fred Kennedy, que foi dublê em muitos westerns
FRED KENNEDY - Um veterano dublê achamado Fred Kennedy participava das filmagens de “Marcha de Heróis” (The Horse Soldiers), fazendo figuração. Certo dia Fred procurou John Ford e disse-lhe que estava precisando de dinheiro, pedindo ao diretor para deixá-lo fazer uma queda de cavalo. Os stuntmen ganham por cada cena de perigo que executam. Uma queda de cavalo, por exemplo, tem um valor determinado. Quantas quedas o stuntman executar, mais ele ganha no fim do dia de filmagens. John Ford ainda disse para Fred Kennedy: “Você está um pouco gordo e me parece fora de forma física.” Mas Fred insistiu dizendo a John: “Pappy, o Natal está chegando e esse dinheirinho vai me ajudar muito...” Isso bastou para convencer Ford que deixou Kennedy dublar William Holden numa queda de cavalo bastante simples. Antes Ford avisou a Fred Kennedy que, após a queda, ele somente se levantasse depois de ouvi-lo gritar “cut”. Kennedy caiu exatamente na marca determinada. Ford percebeu algo errado na queda de Kennedy mas deu sequência à cena, com a câmara filmando e a atriz Constance Towers deveria se aproximar de Kennedy, como se este fosse Bill Holden, atirando-se sobre ele. Constance fez isso e repentinamente deu um grito desesperado e ficou congelada ao perceber que Fred Kennedy havia quebrado o pescoço e estava morto. John Ford jamais se perdoou pela morte de Kennedy pois entendeu que foi o culpado ao permitir que ele fizesse aquela dublagem. O diretor entrou em forte depressão e daí para frente praticamente desinteressou-se pelo filme, dirigindo-o quase mecanicamente. Ainda assim “Marcha de Heróis” é um belíssimo western sobre a Guerra Civil. Fred Kennedy tinha 48 anos quando de seu trágico falecimento.


Bob Morgan e Yvonne De Carlo
BOB MORGAN - Havia um dublê que era bastante conhecido entre os stuntmen, principalmente por ser casado com uma das mais bonitas e queridas estrelas de Hollywood, Yvonne De Carlo. Seu nome era Bob Morgan e estavam casados desde 1955 e tinham dois filhos. Em 1962 Bob Morgan era um dos 44 stunts contratados para as muitas cenas de perigo de “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won), superprodução filmada em Cinerama. Uma das grandes sequências de ação desse western envolvia vários doublês que lutavam em um vagão de carga com o trem em movimento, em cima de toras empilhadas no vagão e amarradas por correntes. Uma dessas correntes quebrou-se e as toras despencaram, com uma delas rolando sobre o corpo de Bob Morgan, que caiu desfalecido, sofrendo diversas fraturas. Levado ao hospital o dublê teve uma perna amputada, encerrando sua carreira como stuntman. Yvonne e Bob permaneceram casado até 1968, quando se divorciaram. Por ocasião do acidente Morgan tinha 45 anos de idade.

REVISTA PARDNER N.º 12


Em abril você poderá ler a edição n.º 12 da revista PARDNER
integralmente digitalizada. É só acessar este endereço:
pardnerwestern.blogspot.com
O biografado dessa edição é Antônio Ribeiro, grande conhecedor
de cinema, especialmente do gênero western.
Este foi um número muito especial pois foi dedicado aos queridos
coadjuvantes dos B-Westerns, como os que estão na capa
em torno do Toninho. Tente reconhecer todos eles.
Depois confira as respostas na própria revista PARDNER.
A revista PARDNER era publicada para os sócios do
CAW, clube fundado pelo Dr. Aulo Barretti em 1977.

28 de março de 2011

JOHNNY GUITAR - VEÍCULO PARA O ESTRELISMO DE JOAN CRAWFORD

“Johnny Guitar” é um dos westerns mais aclamados do cinema, seja sob a ótica psicológica, política ou artística. Ainda assim está longe de ser uma obra-prima. Um dos males do filme de Nicholas Ray foi justamente a pretensão do diretor em amalgamar todas essas questões em um faroeste, gênero que comumente prima pela simplicidade e que, quando envereda pela grandiosidade ou pelo preciosismo de linguagem, quase sempre abre mão da sua naturalidade. Além disso havia Joan Crawford.

Impossível deixar de analisar “Johnny Guitar” sob o aspecto político pois foi realizado num momento difícil da perda da força do Macarthismo, quando pequenos e grandes atrevimentos já eram permitidos no cinema. O mais notável desafio àquele movimento tenebroso que empobreceu a arte cinematográfica foi feito por “Matar ou Morrer”, de Fred Zinnemann e a partir daí as ousadias foram se manifestando. O roteiro de “Johnny Guitar” é oficialmente atribuído a Philip Yordan tendo sido, de fato, escrito por Ben Maddow, roteirista impedido de trabalhar por estar na Lista Negra de Hollywood. Yordan foi aquilo que se chamou de ‘testa-de-ferro’ para roteiristas perseguidos pelo Macarthismo. A escolha do elenco de "Johnny Guitar" foi um primor de cinismo, a começar por Sterling Hayden, uma das testemunhas que denunciaram colegas diante do comitê que apurava atividades comunistas. 20 anos mais tarde Hayden declararia: “Fui um rato ao relacionar nomes de grandes amigos que entraram para a Lista Negra de Hollywood. Todos eles foram privados de suas subsistências. Mais que um rato, fui um verme!” Em “Johnny Guitar” o cruel roteiro faz Hayden responder a Dancin’ Kid (Scott Brady), pistoleiro canhoto, quando este lhe oferece a mão para um cumprimento: “Não dou a mão a canhotos!”, recusando-se a cumprimentar o rival. Ward Bond, por sua vez foi um dos mais radicais perseguidores de artistas com tendências ou meras simpatias de esquerda em Hollywood e seu personagem em “Johnny Guitar” é praticamente o mesmo que ele viveu na vida real. O roteiro vinga-se de Ward Bond fazendo seu personagem se acovardar na recusa em chicotear o cavalo de Vienna (Joan Crawford) na cena do enforcamento e também recusando-se a matá-la quando da cena final. O brutal Bond virou covarde no texto de Ben Maddow. O personagem interpretado por Royal Dano chama-se 'Corey', não sem razão, remetendo ao ator Jeff Corey, outra infeliz vítima do Macarthismo. E a metáfora do próprio tema principal de “Johnny Guitar” que é o medo da estrada de ferro que deve chegar mudando a vida daquele lugarejo dominado por Emma Small (Mercedes McCambridge), baronesa do gado que não admite a mudança da ordem estabelecida (por ela). Nicholas Ray antes ou depois de “Johnny Guitar” jamais realizou trabalho com viés político tão acentuado. Em 1979, como ator, pudemos ver Nicholas Ray, em “Hair”, interpretando um general norte-americano que é vítima de um monumental deboche por parte dos recrutas que estão prestes a embarcar para a morte no Vietnã. Aí a briga de Hollywood já não era mais com a caça às bruxas, sem nenhuma maldosa referência a Joan Crawford...

Johnny Guitar (Hayden) e Dancin' Kid (Brady)
Histórias de amor aparecem em quase todos os westerns mas de forma acessória à trama principal que invariavelmente envolve desbravamento de territórios, vingança, justiça e afirmação de personalidade. Quando o romance procura sobrepujar a importância da ação nos westerns estes perdem sua essência, como ocorreu em “Duelo ao Sol”, de King Vidor. No filme de Ray parece que o roteiro buscou inspiração na poesia do nosso Carlos Drummond, parafraseado por Chico Buarque nos versos “Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca, que amava Dora que amava toda quadrilha...” Em “Johnny Guitar” Emma ama Dancin’ Kid que ama Vienna que ama Johnny Guitar... Sem esquecer que Turkey (Ben Cooper) também gosta de Vienna... À parte todo esse enredo de amores, há ainda o ódio de Emma por Vienna que muitos veêm como uma latente relação homossexual não realizada. Todos esses ‘amores’ tentam durante o filme passar de temas subjacentes a um único tema central que seria a generalizada insatisfação amorosa. Mas não se pode esquecer que “Johnny Guitar” é um faroeste. Os diálogos que permeiam as contendas dos casos passionais são primorosos e sarcásticos, lembrando as melhores linhas de grandes filmes noir ou as afiadas ironias das parcerias de Billy Wilder com Charles Brackett ou de I.A.L. Diamond. Mas não se pode esquecer, repito, que “Johnny Guitar” é um faroeste. E longe de pensar que não possa haver diálogos inteligentes num western. Apenas não podem os diálogos dominar um filme deste gênero, ambientado na fronteira do Arizona, em meio a cowboys, foras-da-lei e homens sem rumo como Johnny ‘Guitar’ Logan, todos eles se expressando com a eloqüência de intelectuais do Leste. Os excessivamente ricos diálogos de Yordan/Maddow criam personagens irreais e distantes do Velho Oeste. Tanto o diálogo tem importância menor em um western que juntando-se todas as falas de John Wayne e Clint Eastwood nos westerns em que atuaram, não falaram tanto quanto se fala nos diálogos de “Johnny Guitar”.

Sabe-se que Joan Crawford foi uma das pessoas envolvidas na produção de “Johnny Guitar”. Com a carreira em baixa Joan decidiu colocar dinheiro num filme que lhe possibilitasse novo sucesso. A primeira escolha de Nicholas Ray para interpretar Emma Small seria Barbara Stanwyck, porém a Republic Pictures teria se recusado a contratá-la em razão do alto salário da atriz. Outra versão fala que Barbara teria sido vetada por Joan Crawford que não admitia que ninguém pudesse ofuscar seu estrelismo. E que estrelismo! A cada sequência um traje diferente cuidadosamente desenhado para destacar a atriz do cenário e dos demais atores, como quando ela veste-se de branco e todos estão de roupas pretas, inclusive Emma. O artifício do roteiro para essa composição seria o enterro do irmão de Emma. Ao chegar molhada no esconderijo do bando de Dancin’ Kid, novo traje lhe é providenciado, desta vez uma exuberante camisa amarela emprestada de Turkey, traje complementado com lenço vermelho que ela, com extremo cuidado ajeita para ficar ainda mais elegante, parecendo que ia para uma festa country. Afinal ela iria duelar com Emma Small, esta toda molhada e respingada de lama após passar pelo mesmo caminho trilhado por Vienna. A empostação de Joan Crawford, situada acima dos demais intérpretes, olhando-os com arrogância e superioridade chega a ser patética para um western. A cena do enforcamento, feita na medida para destacar o desespero de Joan Crawford, acaba sendo inteiramente roubada por sua inimiga no filme e na vida real, McCambridge em mais um brilhante momento dramático. Metade de "Johnny Guitar" se passa dentro do saloon denominado “Vienna”, espécie de catedral barroca onde pontifica suprema e magnânima a personagem de Crawford. A justificativa para essas cansativas composições cênicas seria que o filme  todo gira em torno de Vienna, uma personagem unidimensional. A grande personagem do filme que é Emma Small, aquela que é loucamente apaixonada por Dancin’ Kid e é por ele desprezada, aquela que quer a todo custo exterminar com Vienna e seu saloon e tudo que ele representa de ameaça, aquela que comanda um grupo de poderosos criadores e comanda até mesmo a lei. Pois esta personagem passa para um plano inferior, sacrificando-se Emma Small para dar uma dimensão maior à produtora de “Johnny Guitar”, digo, Vienna. E o filme ganha qualidade quando Vienna cede espaço para o desenvolvimento das personagens de Guitar, Dancin’ Kid e Bart Lonergan (Ernest Borgnine), todos distantes da teatralidade com que Joan Crawford compôs a sua Vienna. E essa teatralidade resulta praticamente vazia, como vazio é o pretenso psicologismo da temida dona do saloon, a quem os quatro empregados insinuam ser um verdadeiro homem de saias.

Mercedes McCambridge / Emma
Grandes westerns têm como personagem maior os espaços quase infinitos das pradarias, desertos, vales e canyons. Quando o claustrofóbico saloon é queimado, “Johnny Guitar” transforma-se em verdadeiro western e ocorrem as melhores cenas de ação do filme. Esquece-se até do clichê, tantas vezes usado pela Republic, que é a passagem secreta que leva até o esconderijo do bando de Dancin’ Kid no alto de um morro. E o filme atinge o clímax com a troca de tiros entre Guitar e os homens de Kid, cena que Crawford se esforçou para estragar olhando fixamente para a linha do horizonte, ela que estava posicionada, como sempre, na parte mais alta do cenário. Ainda assim, a sequência em que Emma mata Dancin' Kid é uma das mais bonitas do filme. "Johnny Guitar" é uma produção muito acima do padrão da Republic, e teve uma feliz reunião de excelentes atores como Hayden, Borgnine e Mercedes McCambridge e outros característicos muito bons como John Carradine, Ward Bond e Royal Dano, além de Scott Brady em excelente caracterização como Dancin’ Kid. Ben Cooper é o ponto negativo de um elenco que é obrigado a fazer ‘escada’ o tempo todo para uma irritante Joan Crawford. Com todos os contratempos passados durante as filmagens e lidando com o ego da produtora, Nicholas Ray realizou um trabalho bastante apreciável. Joan Crawford impediu que lhe fizessem closes em cenas externas para não mostrar a ação do tempo em seu rosto. Quando Mercedes fez a cena em que discursa diante dos produtores de gado, foi aplaudida por todos que estavam presentes no set, menos por Crawford que escondida espreitava a cena. Logo em seguida Joan dirigiu-se a Ray exigindo que a sequência fosse cortada pois a estrela do filme era ela e não Mercedes. Ray manteve a cena, mas os posters do filme mostram sempre Joan Craford em destaque coma frase: “O Grande Triunfo de Joan”. Não bastasse tudo isso, durante as filmagens o estúdio estava indeciso em transformar o filme em 3.ª Dimensão, a novidade de 1953, exigindo de Nick Ray que objetos fossem lançados contra a câmara, como em qualquer 3D. A edição final conseguiu contornar essa inconveniência. Apesar de ressaltar os excessos cênicos de Joan Crawford, a expressiva trilha sonora de Victor Young dá ainda mais colorido ao filme que o Trucolor da Republic e, na cena final, ouve-se a suavidade de Peggy Lee interpretando a belíssima canção-título “Johnny Guitar”, para a qual Peggy fez a letra desse western diferente de qualquer outro até hoje produzido e prejudicado pelo inaceitável e sinistro estrelismo de Joan Crawford. Talvez por isso mesmo "Johnny Guitar" esteja hoje mais para um filme cult que para um verdadeiro clássico do cinema.

27 de março de 2011

O "BAIXINHO" CHARLES BRONSON

John Carradine e o "baixinho" Charles Bronson
em "Revolta em Boot Hill"
Atores de pequena estatura nunca se deram muito bem em Hollywood e as poucas exceções lembradas, como é o caso de James Cagney (1,66), Edward G. Robinson (1,65), Al Pacino e James Dean (1,70), servem para confirmar essa regra. Para atuar em faroestes as dificuldades eram ainda maiores pois além de socar os bandidos os cowboys tinham que montar em altos cavalos. Audie Murphy e Alan Ladd, ambos com 1,66, reconhecidos mocinhos da tela, nunca se deixaram intimidar e nem de utilizar os famosos truques cinematográficos. Em seus filmes, salvo engano, Murphy e Ladd nunca foram chamados de “Baixinhos”. A altura de Charles Bronson, de acordo com a fonte, varia de 1,73 até 1,80. No começo da carreira Charles era mais baixo, tendo feito papéis de índio usando mocassins que não comportavam as plataformas como as dos sapatos que Paul Kersey (seu personagem da série “Desejo de matar”) usava e que elevavam substancialmente sua estatura. Mas mesmo se considerarmos que Bronson media 1,73, não era propriamente baixo para os padrões do cinema nos anos 50. Surpreendentemente no western “Revolta em Boot Hill” (Showdown at Boot Hill), de 1957, Bronson é chamado o tempo todo de “baixinho”, “nanico” e outros nomes nada engrandecedores já que ele era o mocinho do filme em que quase todos em Boot Hill lhe são hostis. Dirigido por Gene Fowler Jr. este foi um dos primeiros filmes em que Charles Bronson, como o Deputy U.S. Marshal Luke Welsh, lidera o elenco, muito antes de se tornar o campeão de bilheteria que foi nos anos 70 e 80. “Revolta em Boot Hill” é um pequeno e interessante faroeste em branco e preto, com elenco onde o grande destaque é John Carradine interpretando Doc Weber, o médico, barbeiro e agente funerário da cidadezinha. Luke Welsh tem a missão de identificar um bandido que acabara de matar, só não contando que toda a população de Boot Hill iria se recusar a identificar o malfeitor, desaparecendo com qualquer prova de quem era ele. Com a forte personalidade que desenvolveu nos filmes, Bronson enfrenta toda a cidade e o fato de ser caracterizado como “baixinho”, em nada afeta sua valentia, valorizando bastante “Revolta em Boot Hill”. E toda a população daquela cidade com nome de cemitério, unida na tentativa de acobertar uma verdade constrangedora para eles próprios, rendem-se afinal ao homem que desprezivelmente trataram. Charles Bronson foi um dos nomes sondados por Sergio Leone para ser ‘The Strange’ em “Por um Punhado de Dólares”, papel que acabou ficando nas mãos de Clint Eastwood (1,88). Interpretando ‘Harmonica’ em “Era uma Vez no Oeste”, também de Leone, catapultou definitivamente Charles Bronson para o merecido estrelato, tão difícil para os baixinhos.

ÁLBUM DE "JOHNNY GUITAR"

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26 de março de 2011

GOOD-BYE, LIZ

Ela nunca fez um faroeste legítimo, mas não se pode desconsiderar "Assim Caminha a Humanidade" que muitos (como o autor Phil Hardy) consideram um western. Mas essa questão pouco importa para quem ama o cinema e para quem se extasia diante de um rosto lindo de mulher. Quem ama o cinema ama "Giant" e nesse filme esplendoroso Elizabeth Taylor atingiu o auge de sua beleza e, por que não, como atriz também. É dessa obra-prima cinematográfica uma das mais maravilhosas sequências da 7.ª Arte, um dos momentos mais sublimes que o cinema já proporcionou: Durante o casamento de sua irmã, Leslie Benedict (Liz Taylor) pressente a presença de seu marido Jordan 'Bick' Benedict (Rock Hudson) atrás dela. Estão separados há tempos e Leslie não sabia que 'Bick' viria. Liz Taylor em comovente interpretação controla sua emoção e felicidade até que a cerimônia acabe. Grande e extraordinariamente linda atriz que encantou o mundo com sua beleza insuperável. A mais bonita mulher que o cinema já mostrou. Adeus, Elizabeth Taylor.

O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL, POÉTICO TÍTULO ARDUAMENTE ESCOLHIDO

A escolha de títulos de filmes nem sempre é tarefa fácil. Um bom exemplo dessa dificuldade foi o título de um faroeste que a Bryna Productions procurou para um western rodado em 1960 e que se baseou no livro “Sundown at Crazy Horse”, de autoria de Howard Rigsby e que teve roteiro de Dalton Trumbo. O filme foi dirigido por Robert Aldrich e Kirk Douglas e Rock Hudson encabeçam o elenco. Eis a tradução de alguns dos títulos cogitados para esse belo western: “Dois Homens Magníficos”, “Brutos e Majestosos”, “Brutos e Trágicos”, “Revólveres Flamejantes”, “Rajada de Trovões”, “Dois para Odiar”, “Conversa de Gatilho”, “Morte é meu Nome do Meio”, Encontro com um Sol Morto”, “Emoção ao Pôr-do-Sol”, “Longo Dia, Rápido Poente”, “Todas as Garotas Usam Vestidos Amarelos”, “Minha Arma, Minha Vida”, “Flores de O’Malley”, “O Combustível e o Fogo”, “Um Leão no meu Caminho”. Ainda bem que a Universal Pictures, que dava a última palavra em relação ao título, optou por “The Last Sunset”, poeticamente traduzido para “O Último Pôr-do-Sol”. E curiosamente nenhum spaghetti-western utilizou os pouco inspirados demais títulos desse atrevido faroeste. Na foto acima vemos Dorothy Malone (Belle Breckenridge), esbanjando sensualidade como poucas vezes se viu num western.

TOP-TEN WESTERNS DO MESTRE CLÓVIS RIBEIRO

Clóvis Ribeiro é um dos maiores conhecedores de Histórias em Quadrinhos do Brasil e seu vasto conhecimento abrange também a Música e se expande ilimitadamente pelo Cinema. Muito apropriadamente Clóvis Ribeiro é chamado de Mestre por seus muitos amigos e pelos admiradores de seus textos que foram publicados na saudosa revista "Fancine". Vamos relembrar quais os westerns que Clóvis Ribeiro indicou como seus preferidos na edição n.º 7 da Revista “Fancine”, publicada em Janeiro/Fevereiro de 1995. Cada um dos dez westerns é seguido de pequeno comentário do Mestre Clóvis.


SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache), 1948 – John Ford
Amostra quase real dos primórdios da Cavalaria. Dramas, trabalho, batalhas, mas acima de tudo a disciplina. Raríssimos momentos de folga entre ataques indígenas e patrulhas aos que chegam e partem. O Oeste desbravado pelo governo exigiu de seus comandantes o cumprimento do dever a qualquer custo. Baixas de ambos os lados, previamente computadas. Obra de arte fílmica, fotografia marcante e inesquecível. Elenco tarimbado e afinadíssimo com o diretor, incursões humorísticas onde o improviso de atores premiados se faz presente. A cada revisão um redescoberta. É Ford, naturalmente.

MATAR OU MORRER (High Noon), 1952 – Fred Zinnemann
A sociedade desnudada em todos os pecados. Mudam os tempos mas a pobreza espiritual hipócrita e coletiva permanecem. A vítima não pode testemunhar mas o bandido pode agir. Os fracos se escudam sob o manto da pseudoproteção de mortais religiosos, mas é um semelhante esclarecido e corajoso que traz a verdadeira salvação. Cumprida a missão parte enojado por ter respirado o mesmo ar daqueles a quem defendeu. A estrela no chão é o desprezo à sociedade.

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane), 1953 – George Stevens
Obra-prima dedicada aos Oeste. Filme tabu que a cada revisão desperta ocultas reflexões para estudiosos e iniciados. Tudo em “Shane” funciona além do exigido. Cada segmento da história, interpretação e cenários naturais obtidos em locações foram seduzidos pelas lentes mágicas de Stevens em momento de sublimação. Coloca num paredão o retrato e o perfil de cada personagem que o espectador decifra, contesta e aceita. Os cortes rápidos e precisos na sequência da cena são como um sacar de armas que só os pistoleiros profissionais executam.

JOHNNY GUITAR (Johnny Guitar), 1954 – Nicholas Ray
A transposição para o western do gênero 'juventude transviada' que o mesmo diretor abordaria magistralmente um ano depois. Guitar é o simpático estranho que chega e domina a comunidade. É o bom em tudo. Sedutor, líder nato, bom de briga e de música, enfim um solitário campeão. Conflitos íntimos afloram e diferenças passionais resolvidas a bala. Interpretações fortes e memoráveis das fêmeas onde o violão no ombro do macho simboliza a liberdade e as armas o território e posse para a sobrevivência. Lee e Young perpetuaram a obra musical.

VERA CRUZ (Vera Cruz), 1954 – Robert Aldrich
Aventura histórica, rocambolesca e alegre, digna das audiências que procuram no cinema entretenimento salutar. Situações onde as forças do poder necessitam dos préstimos dos aventureiros e foras-da-lei com livre trânsito pelos caminhos tortuosos da política de expansão e conquista. A demonstração pura e simples de quem conhece o ofício e aluga suas pistolas para o melhor pagador, situação ou oposição.

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the O.K. Corral), 1957 - John Sturges
Duelos grupais foram anteriormente filmados, mas este Gunfight... explora a individualidade doméstica dos contendores. Virtudes e defeitos crescem durante a narrativa semi-histórica. Os closes mostram rostos preocupados com o clímax do embate próximo. Soberbas interpretações típicas de um clássico. Para colonizar, a lei recrutava pistoleiros mais ou menos bem intencionados, e a soldo, Earp e Holliday fizeram a sua parte.

ESTIGMA DA CRUELDADE (The Bravados), 1958 – Henry King
A irreflexão e ódio sobrepujam os sentimentos e culmina com a intolerância sobre o que parece ser mas não é. A vingança se faz presente numa caçada humana e justiça necessárias. No final os ponteiros da trama se acertam e o observador aceita a proposta de que mortes seriam evitadas apenas com um segundo de reflexão do vingador.

ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks
Síntese simpática de todos os clichês que o Velho Oeste amalgamou e mostrou durante anos. A lei tentando se impôr de forma histriônica onde as personagens nos conquistam para sempre, da primeira à última cena. Os três mosqueteiros, que eram quatro, dividem as performances embalados pelo clima de amizade e, de quebra, música de primeira qualidade. Na história, um marco na carreira de todo o elenco.

O PASSADO NÃO PERDOA (The Unforgiven), 1960 – John Huston
Revolver raízes genealógicas é, por vezes, tocar feridas não cicatrizadas. O racismo pode dividir ou aproximar irmãos de sangue e de criação, dependendo do sentimento, paixão e orgulho de cada indivíduo. Filme tenso e terno. Psicológico e revelador. Guerras geram órfãos que adotados por vencedores e vencidos assimilam o novo lar, cultura, alimentação e sobrevivem. Nunca o western foi tão dramático e adulto. Nota máxima.

A NOITE DA EMBOSCADA (The Stalking Moon), 1969 – Robert Mulligan
O suspense no western. Pela retomada do direito paterno ilegalmente conquistador, guerreiro Navajo investe contra a nova morada de sua ex-presa loura. O objetivo é o filho, mas a violência selvagem o afasta definitivamente de ainda possíveis laços familiares. Astúcia predadora e mortal incute o terror nas mentes de mãe e filho que, resignados, clamam pela chance de viver. Novos horizontes para apagar da memória contatos carnais forçados. Somente com a ajuda e compreensão de um novo tutor civilizado, terno e ciente do ocorrido consegue restabelecer o brilho nos olhos de quem esquecera a identidade e origem. Libelo cinematográfico.

20 de março de 2011

WESTERNS BIZARROS: "O TERROR DE TINY TOWN"

Sam Newfield foi um prolixo diretor e não tinha nenhum preconceito, desenvolvendo qualquer tipo de projeto que lhe caísse nas mãos. Dirigiu o primeiro western totalmente com negros (“Harlem in the Prairie) e em 1938 surpreendeu o mundo do cinema com uma ousadia ainda maior quando apresentou “O Terror de Tiny Town” (The Terror of Tiny Town) com um elenco todo composto por ‘midgets’ (anões).

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Esse filme marcou a estréia de Billy Curtis, cujo nome verdadeiro era Luigi Curto. Billy Curtis ficou muito conhecido interpretando Mordecai, o anão que acompanhou Clint Eastwood em “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter). Billy Curtis tinha 1,27 de altura e foi ‘The Hero’ no estranho “O Terror de Tiny Town”, filme que foi distribuído pela Columbia Pictures. Depois de alguns minutos de filme o espectador deixa de achar graça e passa a se interessar por uma história cujo enredo em nada difere dos B-Westerns que acostumamos a ver. Geralmente massacrado pelos críticos que, exageradamente, o consideram um dos piores filmes de todos os tempos, “O Terror de Tiny Town” não é o pior dos westerns, mas certamente é um dos mais bizarros que já chegaram às telas.


HERB JEFFRIES, "THE BRONZE BUCKAROO"


Estréia do mocinho negro
Há mais de três décadas que se fazia westerns e este era o gênero mais popular do cinema nos anos 30. E de negro nos westerns só mesmo alguns cavalos e, ainda assim, muitos mocinhos preferiam montar vistosos cavalos brancos. Nenhum negro atuava nos faroestes, seja como herói ou vilão. Afro-descendentes somente fazendo figuração, até que em 1937 apareceu “Harlem on the Prairie”, com elenco todo composto por negros e apresentando Herb Jeffries como o primeiro mocinho negro do cinema. Essa diferente produção foi dirigida pelo branco Sam Newfield, experiente diretor com mais de 250 filmes no curriculum, a maioria deles B-Westerns. Como bom "Bezinho" o enredo de "Harlem in the Prairie" é bastante simples e conta a história de uma moça (Caroline Clayburn) cujo pai (Doc Clayburn) quando pertencia a um bando, roubara e enterrara uma caixa contendo peças de ouro. 20 anos depois quando quer reencontrar o ouro, Doc é morto, mas antes entrega o mapa onde está o ouro para Jeff Kincaid (Herb Jeffries), o mocinho do filme, desenrolando-se a partir o confronto entre Kincaid e os bandidos. Este western negro contém tudo que havia nos westerns rodados só com brancos, pois há muita ação, romance e o que não era ainda comum nos westerns: música. Herb Jeffries, antes de ser ator era cantor famoso, mas quem responde pela parte musical do filme é o conjunto vocal negro “The Four Tones”. Inicialmente “Harlem on the Prairie” deveria ser exibido comercialmente apenas nos cinemas para negros no Sul dos Estados Unidos, uma vez que a segregação racial impedia que ‘coloreds’ entrassem em cinemas para brancos. Com a interferência de Gene Autry, já um nome bastante respeitado em Hollywood, o filme foi distribuído de Norte a Sul dos States, tornando-se um grande sucesso de público e permitindo que Herb Jeffries fizesse uma pequena série de B-Westerns. Usando também o nome de Herbert Jeffrey e apelidado “The Bronze Buckaroo” (O Vaqueiro de Bronze), Herb Jeffries atuaria ainda em outros cinco westerns na década de 30, entrando para a história como o primeiro mocinho negro das telas. Nascido em 24 de setembro de 1913 (o site Old Corral indica que ele nasceu em 1911), Herb Jeffries ainda vive, estando próximo de completar cem anos de idade e com a glória de haver aberto caminho para Sidney Poitier, Harry Belafonte e Cleavon Little, artistas negros que também cavalgaram nas telas dos cinemas.

19 de março de 2011

ELEGÍACA HOMENAGEM DE SAM PECKINPAH EM "PAT GARRETT & BILLY THE KID"

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Uma das mais bonitas e inesquecíveis cenas do cinema, filmada por Sam Peckinpah em "Pat Garrett & Billy the Kid". A inspirada música de Bob Dylan, em versão de Zé Ramalho emoldura (neste vídeo) uma elegíaca e instintiva homenagem a dois artistas que fizeram história nos westerns: a mexicana Katy Jurado e o cowboy Slim Pickens. Katy será sempre lembrada por seus fortes personagens em "A Face Oculta", "Matar ou Morrer", "A Lança Partida" e "O Último Guerreiro". O querido Slim Pickens, o melhor dos sidekicks, que saiu dos B-Westerns para brilhar em interpretações marcantes em "A Face Oculta", "E o Bravo Ficou Só" e como o cowboy do espaço Major 'King' Kong pilotando um míssil em "Dr. Fantástico".

18 de março de 2011

VÍDEO DOS GRANDES WESTERNS

Ouça o tema principal do western
"Da Terra Nascem os Homens"
enquanto você assiste ao vídeo
com uma coleção de posters
dos grandes westerns do cinema.

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RICHARD BOONE, VILÃO CRUEL E AMEDRONTADOR

Richard Boone foi um dos grandes bandidos do cinema, com sua cara de poucos amigos e modos nada educados, deixando uma marca bastante forte nos filmes em que atuou, grande parte deles westerns. Richard Allen Boone nasceu em Los Angeles, Califórnia, em 18 de junho de 1917 e era descendente do pioneiro Daniel Boone, talvez por isso sua mocidade tenha sido tão agitada como foi. Como aluno não conseguiu ser muito bem sucedido pois ao invés de cursar as aulas na famosa Stanford University, preferia praticar boxe no ginásio da Universidade. Briguento, ele dava mais socos fora que dentro do ringue, o que acabou lhe custando a expulsão da centenária escola. O diretor da Stanford até recomendou a Dick que tentasse o pugilismo profissional, o que chegou a acontecer, porém sem muito êxito. Dick decidiu então partir para outras ocupações totalmente estranhas entre si. Trabalhou em campos de petróleo, foi pintor e chegou até a escrever contos de ação, os pulps. Nesta última atividade o jovem Boone demonstrava uma certa sensibilidade artística que viria a ser deixada de lado temporariamente pois o mundo estava em guerra. Durante quatro anos Richard foi canhoneiro da Marinha combatendo os japs na II Guerra Mundial. Quando o conflito terminou, Boone não retornou para a Califórnia, indo para a Costa Leste e, em Nova York, ingressou no Actors Studio para estudar Arte Dramática. Já em 1947 estreava na Broadway numa encenação de “Medéia”, interpretada por Judith Anderson. O teatro para ele foi um estágio para chegar ao cinema, onde estreou em Até o Último Homem (Halls of Montezuma), estrelado por Richard Widmark e com a participação de dois atores também iniciantes, Walter [Jack] Palance e Robert Wagner. A seguir Richard Boone atuou no musical Minha Cara Metade (com Betty Grable), A Raposa do Deserto (com James Mason) e Montanhas Ardentes (outra vez com seu xará Widmark). Esses filmes ajudaram a delinear o tipo durão com feição ameaçadora e incapaz de sorrir, tipo que seria visto ao longo de sua brilhante carreira em não faltaram faroestes onde quase sempre era o odiado bandido.

Foi em 1952 que Richard Boone atuou em um western pela primeira vez, dirigido por Delmer Daves e intitulado Fugindo do Inferno (Return of the Texan) e estrelado por Dale Robertson, ator que como Boone, também foi um ex-boxeador. Richard continuou no gênero western com o A Lei do Chicote (Kangaroo), filmado na Austrália com cangurus e aborígenes substituindo gados e índios. Contrastando com a paisagem australiana e com a beleza de Maureen O’Hara, o filme mostrou um cruel e assustador Richard Boone. Da Austrália para os Pampas argentinos, Boone aproveitou para ficar um pouco do lado da lei na caça sem tréguas a Rory Calhoun em O Gaúcho (Way of a Gaucho), em que a mocinha era a linda Gene Tierney. Mesmo após tantos filmes o nome de Boone sequer apareceu nos créditos em O Soldado da Rainha (Pony Soldier), com o Polícia Montada Tyrone Power. A qualidade dos filmes que Boone participou foi melhorando pouco a pouco e teve destaque em Os Saltimbancos, de Elia Kazan e em O Manto Sagrado, em que interpretou Poncius Pilatos. Richard foi um policial em Sombras da Loucura (Vicki), com elenco liderado pelas belas Jeanne Crain e Jean Peters. Veio então a fase de seguidos westerns na carreira de Richard Boone: Cidade do Mal (City of Bad Men), que mistura faroeste com boxe, com o mocinho Dale Robertson e o bandido John Ringo interpretado por Boone, ambos, como já foi dito, ex-boxeurs. Corações Divididos (Siege at Red River), apesar do título nacional não indicar, é um western, raro na carreira do galã Van Johnson que como confederado se defronta com o renegado Boone. Ainda tendo a Guerra de Secessão como pano de fundo Richard Boone atuou em Vingança Terrível (The Raid), completando um valorizado elenco com Lee Marvin e Van Heflin. Covil de Feras (Robber’s Roost) foi um faroeste estrelado por George Montgomery que procura o último dos três bandidos que mataram sua esposa e o vilão, claro, é Boone. Em Arizona Violento (Ten Wanted Men), Randolph Scott se defronta com Richard Boone que contrata os dez bandidos do título original.


Boone com Jeanne Crain em "Homem Sem Rumo"
Homem Sem Rumo (Man Without a Star) foi verdadeiramente o primeiro grande western da carreira de Boone, dirigido pelo célebre King Vidor e com roteiro de Borden Chase, contando com um elenco de categoria que liderado por Kirk Douglas e com Claire Trevor, os coadjuvantes Jack Elam e Jay C. Flippen, o novato William Campbell e a fulgurante beleza de Jeanne Crain. A lascividade de Homem Sem Rumo chega a lembrar Duelo ao Sol, do mesmo King Vidor, e as estupendas atuações de Douglas e Boone fizeram com que o filme resultasse num vigoroso faroeste. A cena final com os dois grandes atores lutando nas cercas de arame farpado é um dos grandes momentos do western no cinema.


Com Maureen O'Sullivan e Randolph Scott em "Resgate de Bandoleiros"
Boone tinha um vozeirão que impressionava e foi o narrador de A Grande Chantagem (The Big Knife), filme de Robert Aldrich, com Jack Palance que denuncia o lado obscuro e podre do mundo do cinema. O próximo western de Richard Boone seria Crimes Vingados (Star in the Dust), com John Agar e a bela loira Mamie Van Doren. Richard Boone era especialista em papéis de homens violentos e atuou em diversos policiais e dramas noir, mas saia-se excepcionalmente bem em faroestes como em Resgate de Bandoleiros (The Tall T), um dos pequenos clássicos dirigidos por Budd Boetticher com produção da ‘Ranown’ (associação dos produtores Randolph Scott com Harry Joe Brown). Com orçamento diminuto e com roteiro de Burt Kennedy, Boetticher antecipou o rompimento com o puritanismo de Hollywood, mostrando uma declarada e estranha atração entre Pat Brennan (Scott) e Frank Usher (Boone), isto dois anos antes do famoso Minha Vontade é Lei (Warlock).


De 1957 a 1963 Richard Boone dedicou-se quase que inteiramente à televisão como o inesquecível Paladin da série O Paladino do Oeste (Have a Gun, Will Travel). Essa série foi produzida pela CBS e o primeiro episódio foi ao ar em 14 de setembro de 1957, encerrando-se em 21 de setembro com o último dos 156 episódios. Durante praticamente todo esse tempo O Paladino do Oeste esteve entre as dez séries de maior audiência, com enorme popularidade também no Brasil. A principal razão desse sucesso era devida à magnífica elaboração da personagem que Boone criou, ou seja, um pistoleiro elegante, charmoso e erudito que alugava seus serviços apenas para as causas que considerava justas. Conhecido apenas por Paladin, sabia-se que era um ex-oficial do Exército da União, desgostoso com o desfecho da Guerra Civil e especialista em quase todo tipo de armas. Sua refinada cultura era simbolizada pelo peão branco do xadrez, encontrado em seu cinturão e rifle, bem como no cartão de visitas que aterrorizava os badmen. Entre os diversos diretores da série estiveram Ida Lupino e Andrew V. McLaglen, sendo que o próprio Boone dirigiu diversos episódios. Na parte musical brilharam os nomes famosos de Bernard Herrmann e de Jerry Goldsmith. A canção-tema era cantada por Johnny Western.


General Sam Houston em "O Álamo"
Nesse período, devido à força da televisão, Boone transformou-se em grande atração, seu salário para participar em filmes aumentou bastante, assim como a qualidade dos papéis que lhe eram oferecidos. John Wayne o chamou para ser o General Sam Houston na superprodução O Álamo. Richard Boone deveria receber 100 mil dólares por sua participação no filme, mas devido às dificuldades financeiras que envolveram esse épico, Boone disse a John Wayne que não queria receber nada, contentando-se com o casaco de couro que usou no filme. Não é necessário dizer que nasceu ali uma imorredoura amizade. Richard Boone foi o primeiro nome do elenco de Um Estrondo de Tambores (A Thunder of Drums), do especialista Joseph M. Newman, em que interpretou um oficial da Cavalaria matador de índios. Se a intenção de John Ford tivesse dado certo, Richard Boone e Anthony Quinn teriam feito os principais papéis dos chefes indígenas em Crepúsculo de uma Raça (Cheyenne Autumn), mas eram atores de muito prestígio e caros demais, sendo substituídos pelos mexicanos Gilbert Roland e Ricardo Montalbán. Ao invés de filmar com John Ford, Richard Boone acabou trabalhando em Rio Conchos, western em que a maior atração é o duelo de interpretações entre Boone e Edmond O’Brien. Saindo um pouco dos faroestes, Richard Boone defrontou-se com Charlton Heston no drama histórico O senhor da Guerra (The War Lord). Em 1967 Boone teria a oportunidade de proporcionar uma das melhores interpretações de sua carreira, no magnífico western Hombre. Richard Boone chefia uma quadrilha que embosca uma diligência que conduz os mais variados tipos de pessoas, entre elas um soberbo Paul Newman como branco criado pelos índios. Um filmaço dirigido por Martin Ritt e Richard Boone em uma de suas mais fascinantes e detestáveis atuações.

O mestre da crueldade em "Hombre"
Richard Boone atuou ao lado de Marlon Brando em A Noite do Dia Seguinte, filme em que Brando despediu o diretor e pediu a Boone que terminasse a película. Apareceu depois ao lado de Kirk Douglas em Movidos pelo Ódio, dirigido por Elia Kazan. Sob a direção de John Huston atuou em Carta ao Kremlin na agradável companhia da linda sueca Bibi Andersson. Nesse tempo Boone já havia encerrado a série de TV Hec Ramsey que obteve ótima aceitação da crítica mas que teve apenas dez episódios. Filmando em Israel, Richard Boone teve o papel principal em um western bastante curioso intitulado Madron. Nesse filme Boone interpreta um velho pistoleiro que ajuda uma freira sobrevivente de um trem massacrado por índios. A freira foi interpretada por Leslie Caron. Com o amigo John Wayne, Richard Boone atuou em Jake o Grandão (Big Jake) e naquele que foi a despedida das telas do grande Duke, O Último Pistoleiro (The Shootist). Defrontando-se com J.B. Books (Wayne), Sweeney (Boone) este alveja Books, recebendo em seguida três tiros de Books (foto abaixo), mesmo escondendo-se atrás de uma mesa de saloon, numa sequência inesquecível deste inevitavelmente triste western dirigido por Don Siegel. Em 1977 Richard Boone foi filmar na Itália com o diretor Gianfranco Parolini, hoje cultuado ídolo de Quentin Tarantino. O spaghetti-western chamou-se A Arma Divina (Diamante Lobo), e Boone teve a companhia dos também desgarrados Lee Van Cleef e Jack Palance. Interpretou depois o personagem Lash Canino em A Arte de Matar, de Michael Winner, refilmagem do clássico noir À Beira do Abismo (The Big Sleep), com Robert Mitchum e James Stewart. Em 1979 participou de uma comédia dramática chamada Morte no Inverno (Winter Kills), mais lembrada pelo elenco liderado por Jeff Bridges e composto por John Huston, Eli Wallach, Sterling Hayden, Toshiro Mifune, Ralph Meeker, Anthony Perkins, Sterling Hayden, Dorothy Malone e outros grandes artistas que deram ao cinema momentos gloriosos, como fazia o próprio Richard Boone.

Baleado por John Wayne em "O Último Pistoleiro"
Richard Boone teve a honra de despedir-se do cinema ao lado de Toshiro Mifune no filme The Bushido Blade, rodado em 1980. Nos últimos anos de sua vida Boone tornou-se professor de Arte Dramática numa Universidade da Flórida, justamente ele que havia sido expulso da Universidade que cursou quando jovem. Richard Boone, que era primo do cantor Pat Boone, foi casado três vezes, tendo vivido por 30 anos com sua última esposa, que ficou ao seu lado até sua morte, em 10 de janeiro de 1981, aos 63 anos, vítima de um câncer na garganta. O cinema e a TV perdiam Richard Boone, um ator inesquecível que se tornou um modelo de vilão cinematográfico e um dos mais importantes homens maus do faroeste.


16 de março de 2011

PORQUE "O PASSADO NÃO PERDOA" FOI RENEGADO POR JOHN HUSTON

John Huston chamou “O Passado não Perdoa” (The Unforgiven) de um filho adotivo pois não o reconhecia como naturalmente seu. Por não gostar do resultado final desse western Huston sempre o desprezou, assim como desprezado este filme foi pela maioria dos críticos à época de seu lançamento. Com roteiro desenvolvido a partir de livro de Alan Le May, autor de “The Searchers” (Rastros de Ódio) e tendo o mesmo assunto como tema principal, ou seja, a intolerância racial, a United Artists deu a Huston não só uma boa história para filmar, mas também um excelente elenco. Burt Lancaster, Audrey Hepburn, Lilian Gish, Charles Bickford e Tony Curtis eram os nomes principais. Tony Curtis, porém, desistiu à última hora e foi substituído por Audie Murphy. Completaram o elenco John Saxon, Joseph Wiseman, Doug McClure, Albert Salmi, June Walker, Kipp Hamilton e Carlos Rivas como o índio Kiowa Lost Bird. A música foi entregue ao mestre Dimitri Tiomkin e a fotografia feita pelo experiente e renomado Franz Planner que pouco antes fora o cinegrafista de “Da terra Nascem os Homens” (The Big Country), outro western renegado por seu diretor (William Wyler). Com essa equipe e dirigido por John Huston acreditava-se que “O Passado não Perdoa” seria um retumbante sucesso e que passaria à história como um dos melhores faroestes de todos os tempos. Esperava-se um filme à altura de “Relíquia Macabra”, “O Tesouro de Sierra Madre”, “Uma Aventura na África” ou “O Segredo das Jóias”, indiscutíveis obras-primas dirigidas pelo rebelde diretor.  


Em sua biografia “An Open Book”, Huston afirma que não conseguiu dar ao filme a profundidade psicológica que pretendia, pois foi obrigado pelos produtores a transformar cada membro da família Zachary numa personagem heróica, com o que nunca concordou pois gostava em seus filmes de tipos mais humanos, mais realistas. À parte desse discutível argumento, todas as famílias de pioneiros que desbravaram o Oeste Selvagem não deixaram de ser figuras épicas da centenária epopéia dessa conquista que a literatura e o cinema tão bem retrataram, ainda que de forma quase sempre romanceada. Está certo que Ben Zachary (Lancaster) está longe da complexidade de Ethan Edwards, personagem também criada por Alan Le May e excepcionalmente retratada em filme por John Ford em “Rastros de Ódio”, mas cada personagem de “O Passado não Perdoa” acaba ganhando individualmente grande intensidade dramática e dando ao filme o tom exato que certamente deveria ter. Lilian Gish como Mattilda, a matriarca que nega o sangue índio de Rachel; Audrey Hepburn (Rachel) descobrindo dolorosamente a verdade da sua origem índia; Joseph Wiseman como o tenebroso confederado Abe Kelsey brandindo sua espada e vociferando a história do rapto da menina índia; Burt Lancaster escondendo compungentemente a origem da sua irmã, a quem, acreditando que ambos morreriam no ataque Kiowa, revela afinal o amor represado. E há ainda as personagens menores, igualmente perfeitas, com destaque para Carlos Rivas como o cacique Kiowa que quer resgatar a índia perdida para os brancos, situação inversa à da pequena Debbie em “Rastros de Ódio”. E assim como Scar/Cicatriz (Henry Brandon) naquele clássico de John Ford, o Kiowa Lost Bird é também mostrado com grande respeito e dignidade.

No entanto, a maior surpresa de “O Passado não Perdoa” foi Audie Murphy como Cash, um dos filhos de Mattilda, dividido entre o ódio pelos índios e a unidade da família. Esta foi a suprema atuação de Murphy nas telas, mostrando que podia ser bom ator, outra vez pelas mãos de Huston, como já havia feito em “A Glória de um Covarde” (The Red Badge of Courage). O tom grandioso que “O Passado não Perdoa” atinge e que tanto desagradou seu diretor é que faz dele um filme memorável, com imagens e música esplêndidas e um final emocionante com a família defendendo até o último alento sua propriedade e o amor pela índia seqüestrada ainda criança e transformada em adulta branca.

“O Passado não Perdoa” teve uma filmagem cheia de incidentes. Audrey Hepburn, sofreu uma queda do puro sangue árabe que montou no filme e quebrou algumas costelas, retardando a produção em quase um mês. Devido a essa queda ela sofreu um aborto pois estava em início de gravidez. Num dia de folga das filmagens Audie Murphy foi caçar patos e o barco em que estava virou e o maior herói norte-americano da 2.ª Guerra Mundial, que não sabia nadar, foi salvo por uma fotógrafa que estava próximo ao lago. Três técnicos que trabalhavam no filme morreram quando da queda de um pequeno avião que os transportava para as locações em Durango, no México. Talvez esses fatos tenham desgostado o excêntrico diretor, a ponto de ele menosprezar esse grande faroeste que é “O Passado não Perdoa”. Único western da maravilhosa Audrey Hepburn, um dos melhores dos muitos em que Lancaster atuou e certamente o melhor que John Huston filmou, desconsiderado, é claro “O Tesouro de Sierrra Madre”, que para muitos é também um western. Mas isso já é uma outra história...