UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

20 de maio de 2013

SANGUE NAS MONTANHAS (Um Fiume di Dollari) – O ÓTIMO WESTERN DE CARLO LIZZANI


Acima Dino De Laurentiis;
abaixo Carlo Lizzani.

Em 1966, aos 47 anos de idade, Dino De Laurentiis já havia produzido mais de 80 filmes. Alguns deles memoráveis como “Arroz Amargo”, “Noites de Cabíria”, “A Estrada da Vida”, “Ulisses” (com Kirk Douglas), “O Ouro de Nápoles”, “Guerra e Paz” (com Henry Fonda e Audrey Hepburn) e “A Grande Guerra”. E como é sabido, para se produzir filmes de arte como os muitos que De Laurentiis produziu, era necessário produzir paralelamente filmes de maior apelo popular, o que o levou a ser o produtor executivo de “Maciste Contra o Vampiro”. Quem interpretou Maciste nesse filme de título bizarro foi o ex-Tarzan Gordon Scott e o diretor desse filme foi o conhecido Sergio Corbucci. Assim como Corbucci, alguns dos diretores que conheceram a glória nos Westerns Spaghetti iniciaram suas carreiras trabalhando nos ‘sandálias e espadas’ filmados em Cinecittá. Entre esses diretores estão Sergio Leone, Ducio Tessari, Gianfranco Parolini e Sergio Solima. Para ganhar dinheiro Dino De Laurentiis decidiu produzir o gênero que estava deixando outros produtores mais ricos que ele, gênero que logo seria apelidado de ‘Western Spaghetti’. Para sua primeira aventura num faroeste Made-in-Italy, De Laurentiis chamou um diretor que nunca rodara filmes de Maciste, Ursus, Hércules e companhia. Esse diretor era Carlo Lizzani.

Western para o mercado norte-americano - Dino De Laurentiis e Carlo Lizzani se conheciam há muito tempo pois Lizzani, após ter sido crítico de cinema, passou a escrever roteiros, sendo de sua autoria (em colaboração) os roteiros de obras neo-realistas como “Alemanha, Ano Zero” (de Roberto Rosselini) e  “Arroz Amargo” (de Giuseppe De Santis). Os filmes dirigidos por Carlo Lizzani muitos deles com roteiros de sua autoria, tinham forte cunho sócio-político e o mundo cinematográfico italiano ficou ansioso para ver o resultado desse primeiro western produzido por De Laurentiis e dirigido pelo intelectualizado Lizzani. O filme teria o título de “Un Fiume di Dollari” e em Inglês se chamaria “The Hills Run Red”. A prática da época na Itália era filmar faroestes utilizando-se títulos em Inglês que criassem a dúvida sobre a origem do filme. E mesmo atores, diretores e técnicos em geral passavam a ter nomes aparentemente norte-americanos, pois a América do Norte era a terra do faroeste. No caso de “Un Fiume di Dollari”/“The Hills Run Red”, a razão era mesmo porque De Laurentiis pretendia lançar o filme também nos Estados Unidos, o que ainda não acontecia com os Westerns Spaghettis, mesmo os de grande sucesso na Europa, como a Trilogia dos Dólares de Sergio Leone.


Dan Duryea
Dan Duryea no elenco - A produtora de Dino De Laurentiis associou-se à C.B. Films, de Barcelona, para realizar “Un Fiume di Dollari”/“The Hills Run Red”, cujo elenco foi encabeçado por três atores norte-americanos, os muito conhecidos Dan Duryea e Henry Silva e por Thomas Hunter. Ainda praticamente um iniciante como ator, Hunter foi escolhido por sua fisionomia lembrar bastante a de Clint Eastwood, o maior nome nas bilheterias italianas em 1965. Atores norte-americanos já vinham atuando em faroestes produzidos na Europa e De Laurentiis sabia que isso facilitaria o lançamento do filme nos Estados Unidos. As filmagens teriam como locações as pradarias de La Pedrita e Colmenar Viejo, na Espanha, aparentemente porque Almería, também na Espanha, estava sempre ocupada com tantos westerns sendo filmados simultaneamente. A Dinocittá, estúdio de Dino De Laurentiis localizado nos arredores de Roma também seria utilizado, tanto para cenas externas, na cidade cenográfica que foi construída, como para as cenas internas.  O roteiro de “Un Fiume di Dollari”/“The Hills Run Red” foi escrito por Piero Regnoli, que nos créditos aparece como ‘Dean Craig’. A trilha sonora foi composta pelo incansável Ennio Morricone, ‘Leo Nichols’ nos créditos e o próprio Carlo Lizzani ganhou o americanizado nome ‘Lee W. Beaver’.

Henry Silva
García e Los Garcíanos - A história de “Un Fiume di Dollari”/“The Hills Run Red”, que no Brasil se chamou “Sangue nas Montanhas”, é visivelmente inspirada em outros westerns.O filme começa com dois sulistas, ao fim da Guerra Civil, roubando 600 mil dólares do U.S. Army, dinheiro destinado à compra de armamentos. Perseguidos por uma patrulha do Exército, os bandidos decidem que um deles se entregaria enquanto o outro fugiria. [Certamente o leitor deve ter lembrado de “A Face Oculta”, o admirável western de Marlon Brando.] Ken Seagall (Nando Gazzolo) tem mais sorte que Jerry Brewster (Thomas Hunter) e fica com os 600 mil dólares, enquanto o comparsa vai para a prisão em Fort Wilson. Lá Brewster amarga cinco anos de maus tratos e trabalhos forçados, enquanto Seagall, que mudou seu nome para Ken Milton, aplica bem o dinheiro roubado e se torna praticamente o dono de Austin, para onde fugira. Ao sair da prisão Brewster descobre que sua esposa falecera por culpa de Seagall, a quem Brewster pedira que cuidasse dela e do filho pequeno. O paradeiro do menino Tim Brewster (Loris Loddi) é desconhecido. Orientado por um estranho chamado Winny Getz (Dan Duryea), Brewster muda seu nome para Jim Houston e arquiteta a vingança. Para isso precisa se aproximar de Seagall, que tem como capataz García Mendez (Henry Silva), mexicano que comanda dezenas de homens que trabalham na Fazenda Mayflower, de propriedade de Ken Milton (Seagall). Jim Houston (Brewster) ganha a confiança de García Mendez e passa a trabalhar em Mayflower, porém ao mesmo tempo trabalha também para Brian Horner (Geoffrey Coppleston), que disputa o poder em Austin com Milton. [É natural que o leitor lembre-se das duas facções em “Por um Punhado de Dólares”.] Sempre ajudado pelo estranho Winny Getz, Jim Houston consegue liquidar com o pequeno exército chamado Los Garcíanos, liderado por García Mendez e vinga-se de Ken Seagall, matando-o. Houston volta a chamar-se Brewster, revela que é pai do pequeno Tim e sua viuvez está com os dias contados pois Mary Ann (Nicoletta Machiavelli), a irmã de Seagall sente-se atraída por Brewster.

Thomas Hunter
Personagem atormentado pela vingança - Certa vez Sergio Leone disse a Budd Boetticher, querendo glorificar o diretor de “Sete Homens Sem Destino”, que havia roubado tudo dele. Mas quem parece conhecer bem os westerns de Boetticher é mesmo Carlo Lizzani. E Lizzani conhecia ainda melhor os faroestes de Anthony Mann. Partindo de um roteiro que em outras mãos teria um tratamento rotineiro, Lizzani dá a essa história de vingança um desenvolvimento diferente do que se fazia nos Westerns Spaghetti. Jerry Brewster é um personagem atormentado pelo seu desejo de vingança, o que o leva a ter pesadelos e a gritar como se estivesse enlouquecido pelo ódio. Lizzani dirige Thomas Hunter como se este fosse o James Stewart dos westerns de Mann. Mais violento que os faroestes de Boetticher ou de Anthony Mann, até porque os Westerns Spaghetti não tinham as restrições que Hollywood impunha nos anos 50, Lizzani cria cenas fortíssimas. Uma delas é a retirada da tatuagem do braço de Brewster, feita com uma faca em brasa, por Winny Getz. Outra é Brewster esfaqueando com crueldade um bandido que queria matá-lo O espancamento sofrido por James Stewart em “Um Certo Capitão Lockhart” é quase nada perto do que Brewster passa na cadeia e posteriormente nas mãos dos Los Garcíanos. Essa dose de violência absorvida pela determinação do sofrido e vingativo Brewster, mais a presença de personagens como Getz e Mendez, dá a “Sangue nas Montanhas” um tom insólito para um Western Spaghetti e seus invulneráveis anti-heróis.

Nicoletta Machiavelli

Loris Loddi
Um estranho chamado Getz - Os bandidos quase sempre se destacam nos filmes, não raro brilhando mais que os heróis. É o que acontece com o personagem García Mendez, mesmo interpretado com excessivo histrionismo por Henry Silva. García é enamorado de Mary Ann (Nicoletta Machiavelli), a irmã do patrão Seagall, mas quem gosta de García é a dançarina Hattie Gardner, numa subtrama que poderia ser melhor desenvolvida. García é elegante, arrogante e frio, qualidade esta que demonstra quando ao invés de matar Brewster que está prostrado implorando para ser morto, decide contratá-lo dizendo “Você é um campeão. Campeões não se matam, preservam-se.” O interesse de “Sangue nas Montanhas” aumenta sempre que entra em cena o estranho chamado Getz, interpretado por Dan Duryea. Eterno e sempre perfeito homem mau de tantos faroestes e filmes policiais, desta vez Duryea feito uma sombra protege o vingativo Brewster e dá ao filme um inesperado toque de mistério. E há uma razão para isso pois Getz está em missão para reaver o dinheiro e seguindo Brewster chegará a Ken Seagall. O cinismo marcante de Dan Duryea, desta vez num desempenho simpático, valoriza o personagem. Mulheres interpretam tipos quase sempre prescindíveis nos faroestes, sendo necessárias mais para agradar as platéias masculinas. Dino De Laurentiis colocou no elenco Gianna Serra, a Miss Itália de 1963, mas quem enche os olhos dos espectadores é Nicoletta Machiavelli. Dona de uma beleza delicada, Nicoletta faz o possível par romântico com Thomas Hunter, ainda que o roteiro permita apenas a mútua admiração entre os dois. O ator infantil Loris Loddi, que participou de inúmeros filmes, entre eles “Cleopatra” (com Liz Taylor) e “O Vingador Silencioso” (de Sergio Corbuci) foi bastante bem utilizado por Carlo Lizzani. Suas cenas com Thomas Hunter são comoventes numa relação perfeita de amizade depois esclarecida como amor filial.

O extravagante bandido mexicano.
Detalhamento típico dos Westerns Spaghetti - Se falta originalidade ao roteiro de “Sangue nas Montanhas”, esse fato é compensado pelo excelente ritmo do filme, com muita ação de boa qualidade propiciada pelos dublês Paolo Magalotti, Osiride Pevarello e Guglielmo Spoletini. Lizzani valoriza algumas cenas que são filmadas mais vagarosa e detalhadamente, o que é padrão dos Westerns Spaghetti. A grande cena de ação do filme com o emprego de dezenas de cavalos em meio a uma emboscada tem um desfecho pouco claro pois não se sabe para onde foram os animais. Carlo Lizzani, cujos filmes anteriores se passavam em áreas urbanas e contemporâneas mostrou competência para o faroeste, o que repetiria em “Réquiem para Matar” (Requiescant). Após essas experiências Lizzani voltou a filmar filmes como “Os Bandidos de Milão” (com Gian Maria Volonté e Tomas Milian) e “Mussolini, Ascensão e Glória de um Ditador” (com Rod Steiger e Franco Nero). Thomas Hunter é convincente numa interpretação nada fácil num filme cuja estrela é Henry Silva. Mesmo excessivo em suas gargalhadas e se expressando sempre aos gritos, como bom bandido mexicano, Henry Silva é domina todas as cenas das quais participa, com a ajuda da câmara de Antonio (Tony) Secchi. Esse cinegrafista, o mesmo de “O Dólar Furado” tem oportunidade de mostrar grande habilidade no movimentado gênero que é o faroeste.

Morricone impecável - O que mais valoriza “Sangue nas Montanhas” é a música de Ennio Morricone orquestrada por Bruno Nicolai. Criando trilhas para tantos filmes seria normal esperar que Morricone elaborasse trilhas cada vez mais repetitivas e menos inspiradas. Mas isso não acontecia para a fonte inesgotável de inspiração chamada Morricone. O tema principal, “Home to my Love”, uma canção melancólica e singela, tem letra de Audrey Nohra e é cantada por Gino Spiachetti. Muito mais marcantes são as diversas criações que pontuam momentos diferentes do filme, com Morricone utilizando vozes e cordas magistralmente como sempre, além de piano e muita percussão fazendo a atmosfera perfeita para cada sequência. O CD com a trilha de “Sangue nas Montanhas” merece ser adquirido pelos colecionadores de música de filmes. Dino De Laurentiis, chamado por alguns de ‘Dino De Horrendous’ pela má qualidade de alguns filmes que produziu, legou ao cinema um número considerável de produções artísticas. Entre estas vale lembrar “O Ovo da Serpente”, de Ingmar Bergman, “Oeste Selvagem”, de Robert Altman, “O Estrangeiro”, de Luchino Visconti, além dos filmes que produziu para Federico Fellini nos anos 50. E foi De Laurentiis quem produziu “Joe, o Pistoleiro Implacável”, de Sergio Corbucci. Diferentemente desse western estrelado por Burt Reynolds, “Sangue nas Montanhas” é um dos menos lembrados Westerns Spaghetti, ainda que seja um dos melhores filmes desse polêmico gênero.

Delicada e belíssima Nicoletta Machiavelli.


19 de maio de 2013

WESTERNTESTEMANIA N.º 22 - HOMENAGEM AOS 'MOCINHOS' ANIVERSARIANTES DE MAIO


Por uma grande coincidência muitos mocinhos (e bandidos) da tela nasceram
no mês de maio. 22 deles estão no quadro acima que tem John Wayne
no destaque. Os demais são Henry Fonda - James Arness - Clint Eastwood -
Pernell Roberts - Glenn Ford - Chuck Roberson - John Payne - Clint Walker -
Gary Cooper - George Gabby Hayes - Lex Barker - Harry Woods -
Tyrone Power - Bruce Boxleitner - Jack Holt - James Stewart - Denver Pyle -
Robert J. Wilke - Jack Randall - Harry Carey Jr. - Jay Silverheels.

Respostas no último quadro da postagem







16 de maio de 2013

FAROESTE “OS COMANCHEIROS” É DESTAQUE NA ‘VIRADA CULTURAL PAULISTANA’



Neste próximo fim de semana, dias 18 e 19 de maio, ocorre a 9.ª Virada Cultural Paulistana, dias em que São Paulo se transforma na capital brasileira da cultura. Gal Costa, Daniela Mercury, Renato Teixeira, Sérgio Reis, Raça Negra, Hyldon, Marcos Valle, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sidney Magal, Luiz Caldas, Fafá de Belém, Lobão, Paulo Diniz e dezenas de outros artistas da música se exibem em palcos espalhados por toda a metrópole. A Orquestra Municipal de São Paulo se exibe também abrilhantando o evento. A Virada Cutural abre espaço para praticamente todas as manifestações artísticas como teatro, circo, poesia, literatura e cinema. Em meio a tanta gente famosa estarão presentes John Wayne e Lee Marvin e não se trata de nenhum fenômeno paranormal.


“Shane” no bairro da colina histórica - Faz parte da Virada Cultural Paulistana a Programação do Cineclube do Ipiranga, organizada por Archimedes Lombardi. Apaixonado por faroestes, Archimedes programou para o primeiro sábado do mês de maio (dia 4) nada menos que “Os Brutos Também Amam”, western que agradou em cheio, como não poderia deixar de ser, à plateia que frequenta a sala de cinema da Biblioteca Pública Roberto Santos. Jack Palance continuou na tela do Cineclube do Ipiranga pois no dia 11 foi a vez de “Átila, o Rei dos Hunos”. No último sábado do mês, dia 25 será a vez de o público lembrar do melhor de todos os agentes que usaram a identificação 007, ou seja, Sean Connery, com o filme “007 Contra Goldfinger”.

“Os Comancheiros” - Para o dia 18 de maio, exatamente o primeiro dia da 9.ª Virada Cultural Paulistana, Archimedes Lombardi fez questão de ter a presença de John Wayne, num de seus melhores e mais movimentados faroestes que foi “Os Comancheiros”. Hoje um verdadeiro clássico do gênero, “Os Comancheiros” tem no elenco o sempre impressionante Lee Marvin e ainda Stuart Whitman, lembrado por sua série de TV “Cimarron”. A programação do Cineclube do Ipiranga, de reconhecida qualidade, pelo agrado ao público e por seu conteúdo cultural está, há anos, inserida na programação da Secretaria da Cultura do Município e, consequentemente, dos eventos da Virada Cultural.

Archimedes apontando para Lee Marvin que aponta para Archimedes.

Sessão Nostalgia - Archimedes Lombardi é responsável também pela Sessão Nostalgia, que ocorre todas as quartas-feiras na mesma sala de cinema da Biblioteca Pública Roberto Santos. Para a Sessão Nostalgia Archimedes costuma programar filmes que nem mesmo a televisão aberta ou a TV paga exibem. Em maio o cinéfilo bonachão separou de seu acervo pessoal os filmes “O Pequeno Rouxinol”, com Joselito (dia 8); “Um Raio de Sol”, homenagem à recém falecida Deanna Durbin e ainda com Charles Laughton no elenco (dia 15); Archimedes nunca deixa de programar um faroestezinho, como se dizia no passado, e desta vez Wild Bill Eliott é quem estará presente estrelando “As Algemas da Lei” (dia 22). Para a última sessão do mês (dia 29), o público presente nas sessões anteriores terá a difícil missão de escolher o filme a ser programado. As opções são “O Belo Antonio” (com Marcello Mastroianni e Cláudia Cardinalle), “Uma Vida Difícil” (com Alberto Sordi) e “Umberto D”, de Vittorio De Sica.

WESTERNCINEMANIA se orgulha de ter o cinéfilo Archimedes Lombardi como amigo, ele que é fã de faroestes e nunca deixa de levar os grandes clássicos do gênero para o público frequentador da Biblioteca Pública Roberto Santos. Vale lembrar que as sessões ‘Cineclube’ e ‘Nostalgia’ são gratuitas e têm início sempre às 19 horas. A Biblioteca Pública Roberto Santos, cuja temática é o cinema, fica na Rua Cisplatina n.º 505.

15 de maio de 2013

SETE HOMENS SEM DESTINO (Seven Men from Now) – A OBRA-PRIMA DE BUDD BOETTICHER


Burt Kennedy

A Batjac, produtora de John Wayne criada em 1954, contratou depressa Burt Kennedy, um jovem roteirista de 32 anos que despertara a atenção de Michael Wayne com o primeiro roteiro que apresentara à Batjac. Percebendo o potencial da história, intitulada “Seven Men From Now”, Michael mostrou o roteiro a seu pai. John Wayne ficou interessadíssimo em interpretar o personagem principal da história, mas estava de partida para o Monument Valley onde, sob a direção de John Ford, iria iniciar “Rastros de Ódio”. Wayne pressentia que o novo western de Ford seria um filme importante, com produção orçada em três milhões de dólares, dos quais 500 mil iriam para a conta bancária do Duke. Para produzir “Seven Men From Now” a Batjac teria de investir 500 mil dólares, em parceria com a Warner Bros. que distribuiria o filme. John Wayne sugeriu que fosse contratado Joel McCrea para substituí-lo, porém McCrea também estava compromissado. Os Waynes tentaram então Robert Preston, ator que estava trocando Hollywood pelos palcos da Broadway, onde preferiu continuar. O terceiro nome a ser contatado foi o de Randolph Scott e John Wayne sabia que Scott também produzia seus próprios faroestes, em parceria com Harry Joe Brown. Scott aceitou fazer o filme para a Batjac especialmente porque aquele pequeno western seria rodado em quatro semanas e pertinho de Los Angeles, em Lone Pine. Dessa forma Randy não ficaria afastado dos campos de golfe que tanto amava.

Acima Duke, Randy e Budd;
abaixo John Wayne e sua amiga Gail Russell.
Encontro de Scott com Kennedy e Boetticher - Randolph Scott perguntou a John Wayne quem iria dirigir “Seven Men From Now”, que no Brasil recebeu o título “Sete Homens Sem Destino”, e ficou sabendo que seria Budd Boetticher. Randy lembrou-se de “Império da Desordem”, filme no qual Budd, então chamado Oscar Boetticher Jr., foi o responsável pela segunda unidade, dirigindo as incríveis cenas com dezenas de cavalos em disparada. Boetticher era amigo de John Wayne desde que produzira “Paixão de Toureiro”, em 1951, filme dirigido por Budd. Na nova produção John Wayne reservou o principal papel feminino para Gail Russel, sua amiga que passava por momentos difíceis na luta contra o alcoolismo. Em 1955, quando das filmagens de "Sete Homens Sem Destino", Gail não era nem sombra da atriz que atuara anos antes com Wayne em “O Anjo e o Bandido” e em “O Rastro do Bruxa Vermelha”. O vício estava devastando implacavelmente o lindo rosto de Gail. Um dos coadjuvantes do novo western seria Lee Marvin, com quem Scott havia atuado em “O Laço do Carrasco”. Quando Randolph Scott leu o roteiro de Burt Kennedy, quis conhecer Burt Kennedy, o autor. Pelo roteiro Kennedy recebeu 1.500 dólares da Batjac. Bom de golfe, bom de gatilho, mas melhor ainda para os negócios, Randy pediu a Kennedy que escrevesse novas histórias para os próximos westerns que sua produtora Ranown iria filmar. De fato, a história de Kennedy, era muito boa e o roteiro do próprio Burt melhor ainda.


Walter Reed e Gail Russel; Gail e Scott nas outras fotos.
Sete homens com destino certo - Ben Stride (Randolph Scott) é o ex-xerife de Silver Springs, cidade onde ocorreu o roubo de uma caixa contendo vinte mil dólares em ouro, caixa transportada pela Wells Fargo. Um bando de sete homens foi o autor do roubo, ocasião em que um deles atirou na esposa de Stride, matando-a. O ex-xerife segue então a trilha dos bandidos com a intenção de se vingar de todos os sete bandidos. Após executar dois deles, Stride encontra o casal John Greer (Walter Reed) e Annie Greer (Gail Russell) que se dirige para um lugarejo chamado Flora Vista. Stride ajuda o casal nas dificuldades que se apresentam pelo caminho e seguem juntos para Flora Vista, até que o fora-da-lei Bill Masters (Lee Marvin) e seu comparsa Clete (Don ‘Red’ Barry) juntam-se a Stride e ao casal Greer. Masters anteriormente fora preso duas vezes por Stride quando este ainda era xerife. Masters toma conhecimento do roubo e sabe que seguindo Stride chegará aos homens que estão com a caixa da Wells Fargo. Payte Bodeen (John Larch) é o líder da quadrilha que roubou a Wells Fargo e aguarda a chegada da caixa que está secretamente sendo transportada, escondida nada menos que por John Greer. Por esse trabalho o insuspeito Greer ganhará 500 dólares. Masters mata o terceiro bandido do grupo de sete homens que Stride procura e depois conta a Bodeen quem é Ben Stride.  O ex-xerife obriga Greer a lhe entregar a caixa da Wells Fargo e Bodeen então atira em Greer pelas costas, matando-o. Num confronto, Stride consegue matar mais três dos sete homens que procura. Bodeen, o sétimo e último é morto por Bill Masters, que traiçoeiramente, se livra também de seu assecla Clete. Masters quer o dinheiro mas sabe que Stride não permitirá que ele se aposse da caixa da Wells Fargo. No confronto final entre os dois Stride é mais rápido e liquida Bill Masters.

Randolph Scott na cena inicial. Scott e Marvin.
Enredo incomum - Ao falar de “Sete Homens Sem Destino”, Mestre A.C. Gomes de Mattos chama o enredo do filme de "convencional na sua ação e nos seus personagens". Porém desde o início deste western fica claro que o tratamento que Boetticher dará ao filme é inteiramente diferente das centenas de vezes que vimos um cowboy chegando a cavalo para dar início à história, como em “Shane” e em “Rastros de Ódio”, para lembrar apenas de dois dos westerns mais influentes do cinema. Ben Stride (Randolph Scott) chega a um abrigo sob um forte aguaceiro, sem cavalo, vestindo uma capa de chuva, entrando em cena de costas para a câmara e encontrando dois dos sete homens que procura. Após rápido diálogo Stride fuzila a dupla sem que a câmara mostre os disparos, dos quais só se escuta os estampidos. De comum na sequência concisa apenas o bule de café, tão presente em “Sete Homens Sem Destino” quanto em quase todos os filmes do chamado Ciclo Scott-Boetticher (também conhecido por Ciclo Ranown). Triste e se expressando através de poucas palavras, Ben Stride atrai a simpatia de Annie Greer (Gail Russell) com a evidente aprovação de John Greer (Walter Reed), marido de Annie. Certo que o triângulo, de início, remete mais uma vez a “Shane”, mas a chegada de Bill Masters (Lee Marvin) altera qualquer semelhança e dá início a uma situação tão estranha quanto inesperada e jamais narrada em outro western. Bill Masters é personagem secundário e sequer faz parte do grupo de sete homens que é o objetivo da vingança de Stride. Masters, porém, passa a ser, e o espectador percebe isso, o inimigo maior de Stride, encaminhando a trama para situações cada vez mais inusitadas.

Acima Steve Mitchell, John Larch e Chuck Roberson;
abaixo John Larch e Fred Graham.
Movimentos de jogo de pôquer - Com extrema precisão o crítico norte-americano Andrew Sarris definiu os westerns de Budd Boetticher-Randolph Scott como se fossem um jogo de pôquer, com cada personagem blefando a respeito de suas cartas até a definição do jogo. E “Sete Homens Sem Destino” foi o primeiro de todos esses filmes, delineando o formato dos demais na imprevisibilidade das ações motivadas justamente pela constância de atitudes que Sarris chamou de ‘blefes’, num modelo perfeito de construção cinematográfica. John Greer insuspeitamente transporta a caixa da Wells Fargo. Payte Bodeen (John Larch) sabe que para se apossar dela terá de se defrontar com o homem que o persegue e, mais que isso, eliminar o ardiloso Bill Masters. Diante de bandidos como esses as chances de Ben Stride são mínimas. E diminuem ainda mais quando Stride é ferido por Mason (Chuck Roberson), a quem consegue matar. Bill Masters é o mais perigoso dos malfeitores e seu exibicionismo com as armas, somado à sua frieza, demonstra ser ele um mestre imbatível num confronto leal. A mão de pôquer de Masters se assemelha a um ‘Royal Straight Flush’ com o cinismo do jogador aguardando o desfecho.

A memorável sequência passada dentro do
carroção com o atrevimento verbal de Marvin.
Lascivo e cínico galanteador - Além de econômico e inteligente, o roteiro de Burt Kennedy investe em situações quase impróprias para um western. Gail Russel, por tudo que passava em sua vida pessoal, estava longe de ser uma mulher bonita como normalmente o gênero costumava apresentar. E o melhor exemplo é o de Grace Kelly em “Matar ou Morrer”. O personagem Annie Greer (Gail), mulher simples e desglamurizado lembra as esposas interpretadas por Jean Arthur em “Shane” e Leora Dana em “Galante e Sanguinário”. E Ben Stride em seu cavalheirismo não se furta a ajudar Annie Greer a colocar roupas no varal, sem escapar, é claro do sarcasmo de Bill Masters que metaforicamente avisa que “Vem aí um temporal”. Lembra o roteiro, num dos poucos momentos em que Stride fala de seu passado, que ficara sem emprego e sua esposa tivera que trabalhar para sustentá-lo, fazendo um trabalho que seu orgulho de ex-xerife não permitiria que ele próprio fizesse. Rico nessas incomuns observações, o roteiro de Kennedy atinge seu ponto máximo quando Bill Masters decide contar uma história sobre uma mulher que conhecera. Em um dos grandes momentos do cinema Lee Marvin, fazendo transbordar seu charme de patife, humilha o marido (“meio-homem”), ignora a presença do correto Ben Stride e desfia inacreditáveis e lascivos galanteios à senhora Greer num desigual embate psicológico. Quando o espectador pensa em respirar, aliviado dessa sequência passada dentro de uma carroça sob persistente chuva, Boetticher cria possivelmente o mais sensual momento de um faroeste. É quando Annie Greer luta para resistir à atração que sente por Ben Stride, deitado a poucos centímetros de seu corpo, sob a carroça onde ela também está deitada pronta para dormir.

A tensão entre Gail Russell, Randolph Scott, Lee Marvin e Walter Reed.

A critividade de Budd Boetticher no confronto final.
Plaza de toros em Lone Pine - “Sete Homens Sem Destino” é um filme repleto de pequenos e fascinantes momentos. Touradas sempre foram a paixão maior de Budd Boetticher. Após dois filmes sobre essa forma cruel de demonstração de coragem e destreza, Budd realizaria em 1972 seu sonhado documentário sobre o toureiro Carlos Arruza. Boetticher levou o desfecho de “Sete Homens Sem Destino” para uma imaginária plaza de touros ao filmar o duelo entre Ben Stride e Bill Masters. As formações rochosas de Lone Pine, cenário do filme, cercam o solo de terra no qual um toureiro cioso de sua habilidade (Masters) examina o extenuado touro (Stride). Já haviam dito um para o outro: “Odeio ter que te matar” e “Odeio que você tente isso”, numa forma de respeito entre a fera e quem a persegue. Masters sabe que é mais rápido diante do cansado e alquebrado Stride. O rifle de Stride mais se assemelha a uma espada espetada em seu dorso, o que faz com que Masters desacredite ainda mais da capacidade do ex-xerife. Essa hesitação antecedida da psicologicamente provocativa frase “Quando quiser, xerife”, dita por Masters era o segundo decisivo que Stride precisava para disparar mortalmente contra o poderoso inimigo. Por vezes o touro leva a melhor e esta foi uma delas. Antes, em um precioso achado do roteiro de Burt Kennedy, Masters mata traiçoeiramente seu comparsa Clete. O que pode ser interpretado como um gesto de ganância mais me parece ser uma forma de equilibrar a disputa que se avizinhava entre Masters e Stride.

Lee Marvin, um Narciso do Velho Oeste.
Arrogante, extravagante e presunçoso - Em “Sete Homens Sem Destino” Randolph Scott tem oportunidade de interpretar um personagem próprio dos westerns de Anthony Mann, torturado pelo seu passado e pelo desejo de vingança. A impassibilidade de Scott pode levar a acreditar que ele seja um ator limitado, o que é desmentido nesta sua primeira associação com Budd Boetticher. Gail Russell, que também não era uma atriz de muitos recursos interpretativos, está muito bem como Annie Greer, ainda guardando traços de sua angelical beleza. Gail viria a falecer seis anos mais tarde, em 1961, vitimada pelo alcoolismo. John Larch e Walter Reed são os melhores do elenco de coajuvantes que conta ainda com os lendários stuntmen Fred Graham, Chuck Roberson e Cliff Lyons. Boa também a presença de Don ‘Red’ Barry. Do momento em que entra em cena pela primeira vez, também filmado pelas costas, Lee Marvin não deixa dúvidas que o filme será palco de um show pessoal seu. Carismático, arrogante e extravagante, o adjetivo ‘presunçoso’ é o mais adequado aos tantos tipos criados por Lee na tela, alguns deles pertencentes à galeria dos melhores homens maus do cinema. Em “Sete Homens Sem Destino” Lee Marvin deixa antever o que se confirmaria dentro de poucos anos: que ele foi um dos grandes atores da história de Hollywood.

Outra excepcional sequência criada por
Budd Boetticher.
O estranho traje de Lee Marvin - Esse filme realizado com tão poucos recursos contou com a cinematografia sempre excelente de William H. Clothier. O entendimento entre Clothier e Boetticher pode ser observado exemplarmente na cena em que Stride e Greer lavam os cavalos num riacho e sem closes nos atores, destacando-se a beleza dos animais entre os dois homens. A música discreta de “Sete Homens Sem Destino” é de autoria de Henry Vars. O filme se inicia com o modismo dos faroestes dos anos 50 com uma canção anunciando a trama. Acordes dessa canção simples são reeditados numa orquestração por vezes monótona e pouco inspirada. Scott troca de camisa duas vezes durante o filme, iniciando e finalizando com sua característica camisa escura. Já o personagem de Lee Marvin é quase cômico na sua pretensão de ser elegante ao combinar paletó com uma calça curta demais e com o cinturão de duplo coldre por cima do paletó. O lenço verde chama também à atenção, mas não tanto quanto outro lenço vermelho amarrado no braço esquerdo do personagem, o que não é explicado no filme. Colecionador e apaixonado por armas, Lee Marvin completa seu personagem brincando narcisisticamente com os Colts que carrega.

Budd Boetticher
A luta de Jim Kitses - Desaparecido por mais de 40 anos, desde que fora lançado em 1956, a Batjac permitiu a restauração de “Sete Homens Sem Destino”, patrocinada pela Film Archives da Universidade da Califórnia, isto após uma incansável batalha de Jim Kitses. Professor de Cinema da Universidade de São Francisco (Califórnia), Jim Kitses sabia que o filme de Budd Boetticher era uma espécie de Santo Graal dos apaixonados por faroestes que mereciam conhecer o filme. Kitses programou “Sete Homens Sem Destino” no ano 2000 no New York Film festival de Nova York, com a presença de Budd Boetticher, podendo-se então constatar se André Bazin estava certo na sua histórica crítica sobre o filme. Lançado em DVD, “Sete Homens Sem Destino” traz uma versão com comentários cena a cena do próprio Jim Kitses. Certamente o melhor dos westerns da parceria Scott-Boetticher, “Sete Homens Sem Destino” é um marco do gênero, especialmente por demonstrar que uma produção relativamente barata pode, desde que realizada com inteligência, criatividade e sensibilidade, resultar num grande filme bem interpretado, bem dirigido, emocionante e sem aquelas concessões a artificialismos tão ao gosto das grandes platéias.

Acima Scott e Marvin; Gail Davis; abaixo Lee Marvin e Don 'Red' Barry;
na outra foto Walter Reed e Scott Banhando os cavalos.

12 de maio de 2013

O PRESTÍGIO DE “SHANE” ABALADO PELO MELHOR CRÍTICO DO MUNDO


André Bazin

Parece que listas dos melhores não têm outra função senão a de provocar polêmicas. Recentemente o site Complex.com publicou a lista dos ‘25 Melhores Críticos Cinematográficos de Todos os Tempos’. O site não explica qual foi a metodologia para a escolha que leva alguém a ser considerado o melhor do mundo. O critério poderia ter sido o poder de influência das críticos com suas análises; ou a importância dos livros publicados pelo crítico; ou ainda seu estilo de escrever; poderia ser também o conjunto dos prêmios recebidos. Poderia a Complex.com observar que uma escolha desse tipo só pode ser subjetiva, mas nem isso é dito. Nada é explicado. A Complex.com apenas comenta, referentemente ao primeiro colocado que “Não há nenhum livro sobre cinema tão obrigatório como ‘O Que é Cinema?”, de autoria de Bazin. Indispensável nas aulas sobre Cinema, esse livro é a explicação definitiva do que é uma narrativa visual. Bazin foi o responsável pela ‘Teoria do Autor’, que contextualizou filmes clássicos feitos pelos grandes diretores”.

Os críticos Roger Ebert, Andrew Sarris,
Pauline Kael e J. Hoberman.
Os melhores críticos - Os cinco primeiros colocados na lista dos ‘25 Melhores Críticos de Todos os Tempos’, segundo o site Complex.com são: 1.º) André Bazin; 2.º) Roger Ebert; 3.º) Andrew Sarris; 4.º) Pauline Kael; 5.º) J. Hoberman. André Bazin foi um dos fundadores da influente publicação francesa “Cahiers du Cinema”, que tinha como críticos, além de Bazin, os jovens Éric Rommer, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e Claude Chabrol. Todos os cinco se tornaram cineastas. André Bazin faleceu em 1958, aos 40 anos de idade, quando era o mentor indiscutível do “Cahiers du Cinema” e após criar a ‘Teoria do Autor’ que, de certa forma mudou a maneira de se fazer cinema. Os artigos de Bazin foram reunidos em dois livros intitulados “O Que é o Cinema?”, obra essencial e que faz parte das bibliotecas de todos aqueles que querem compreender melhor a 7.ª Arte.

James Stewart em "O Preço de um
Homem", de Anthony Mann.
Direto para as prateleiras - Entre as críticas de autoria de André Bazin contidas em “O Que é o Cinema?” estão as referentes aos faroestes “Os Brutos Também Amam” e “Sete Homens Sem Destino”. Segundo Bazin, esses filmes são exemplares em demonstrar as diferenças entre dois tipos de produção de westerns. Bazin explica que, Shane é uma superprodução ambiciosa da Paramount concebida para celebrar o 40.º aniversário desse estúdio e também para comemorrar os 70 anos de Adolph Zukor, o presidente daquela empresa. Shane é um filme que nasceu para ser saudado como uma obra-prima. Por outro lado, Sete Homens Sem Destino, western muito superior ao de Stevens, vai passar despercebido e provavelmente vai voltar para as prateleiras da Warner Bros., de onde vai sair apenas para completar programação”. Ao escrever sobre o filme de Budd Boetticher, André Bazin disse: “Minha admiração por Sete Homens Sem Destino não vai me levar a concluir que Budd Boetticher é o maior diretor de filmes de faroeste - hipótese que não descarto - mas simplesmente este seu filme é talvez o melhor western que eu já vi desde o fim da guerra (II Guerra Mundial). O que me faz ser reticente nessa questão é lembrar dos westerns O Preço de um Homem e Rastros de Ódio. (Crítica publicada no “Cahiers du Cinema” n.º 74, de setembro de 1957)

Oscar 'Budd' Boetticher Jr.
Elogio de Sergio Leone - O entusiasmo de André Bazin por “Sete Homens Sem Destino” acabou por tornar o western de Budd Boetticher um filme verdadeiramente Cult no mais amplo sentido que essa palavra possa ter. A profecia de Bazin quanto ao destino do primeiro dos sete filmes que Budd Boetticher fez com Randolph Scott, acabou não acontecendo. Devido a questões de direitos de distribuição “Sete Homens Sem Destino” que foi produzido pela Batjac de John Wayne, desapareceu de circulação e não foi mais exibido nem como complemento em sessões duplas e nem mesmo na televisão por mais de 40 anos. O universo dos fãs de faroestes parecia dividido entre aqueles orgulhosos cinéfilos que assistiram “Sete Homens Sem Destino” e aqueles que sonhavam um dia poder ver esse filme. Segundo Jim Kitses, outro crítico e historiador de cinema apaixonado pelos filmes de Budd Boetticher, havia uma única cópia muito desbotada de “Sete Homens Sem Destino” que clandestinamente circulava em cineclubes e em festivais de menor expressão. E foi num desses festivais que, após a exibição de um western de Boetticher, Sergio Leone se levantou e, de onde estava, dirigindo-se a Boetticher com a característica expansividade, gritou para todos ouvirem: “Oscar, eu roubei tudo de você!” (O nome do diretor era Oscar Boetticher Jr.).

Alan Ladd
Sacarina santificação de Shane - Voltando a André Bazin, sua opinião sobre “Rastros de Ódio” fez com que um tanto tardiamente esse western de John Ford ganhasse cada vez mais admiradores, isto a partir da década de 70. E como Bazin admirava igualmente os filmes de Anthony Mann, em especial seus faroestes, a obra de Mann ganhou contornos de clássica. Para muitos “O Preço de um Homem” citado por Bazin é a obra-prima da parceria Mann-Stewart. Quando escreveu sobre “L’Homme des Vallées Perdues” (título francês de “Shane”), Bazin apontou senões que faziam desse western “um filme afetado e sem espontaneidade, excessivamente preocupado com a sacarina santificação do pistoleiro dos vales perdidos”. Certamente devido em parte à crítica de André Bazin, “Os Brutos Também Amam” deixou de ser a unanimidade que vinha sendo com seu título senpre acompanhado do epiteto ‘o maior faroeste do cinema’. E mesmo reputados por Bazin como ‘os três melhores faroeste já produzidos’, nem mesmo “Rastros de Ódio”, “O Preço de um Homem” ou “Sete Homens Sem Destino” obtiveram a referida unanimidade entre os cinéfilos.

Randolph Scott e Gail Davis, artistas do elenco de "Sete Homens Sem Destino".


10 de maio de 2013

QUADRILHAS DOS FAROESTES - QUEM SÃO OS “SETE HOMENS SEM DESTINO”



Quem conhece o mais famoso faroeste de Budd Boetticher, e que talvez seja o melhor filme de Randolph Scott, sabe que Lee Marvin rouba o filme como o bandido cínico, audacioso e lascivo. E Lee Marvin é morto, ao final, por Randolph Scott que passa o filme procurando pelos sete homens que assassinaram sua esposa. Porém Lee não é um desses sete homens cujo destino é a morte. Por sinal, Lee Marvin ajuda Randy Scott matando dois dos sete homens que ele procura. Todos interpretados por atores pouco conhecidos do público, esses bandidos formaram a numerosa quadrilha desse lendário faroeste. São eles: John Larch, Fred Graham, Chuck Roberson, Cliff Lyons, Steve Mitchell, John Phillips e John Beradino.

John Larch – O mais conhecido dos sete homens procurados por Randolph Scott é o bandido traiçoeiro interpretado por John Larch, o chefe da quadrilha. John Larch nasceu em 1914, em Massachussets e ganhou notoriedade em sua carreira artística interpretando um capitão de nave interplanetária no programa de rádio “Starr of Space”. No cinema Larch estreou em 1954 em “Vingança Inexorável”, um dos últimos filmes do mocinho Bill Elliott, filme que tem no elenco também o bastante jovem Claude Akins. A carreira de John Larch parecia se encaminhar para lugar nenhum, quando ele participou de “O Assassino Anda Solto”, policial dirigido por Budd Boetticher. Foi Boetticher quem indicou Larch para ser um dos bandidos em “Sete Homens Sem Destino”. A partir de então nunca faltou trabalho para John Larch, ator que atuava indistintamente no cinema e na TV, onde era um rosto muito conhecido mesmo sem ter estrelado uma série. A maior oportunidade no cinema para John Larch veio na estréia de Clint Eastwood como diretor, em “Perversa Paixão”. Interpretando um policial, Larch é morto a facadas por Jessica Walter, a fã obcecada do DJ Clint. No ano seguinte John Larch interpretou o chefe do detetive Harry Callahan (Clint Eastwood), em “Perseguidor Implacável”. Os últimos trabalhos de John Larch foram na série “Dallas”, para a TV, em 1990. John Larch faleceu em 2005.

Fred Graham – Mais lembrado como stuntman, Fred Graham era o dublê de John Wayne na década de 40. Charles Frederick Graham nasceu em 1908, no Novo México e era jogador de baseball antes de entrar para o mundo do cinema, dublando Clark Gable nas cenas de perigo. Em “As Aventuras de Robin Hood” Fred dublou Basil Rathbone, o que o ajudou a entrar para o time dos mais conhecidos stuntmen. Por sinal, os melhores deles estavam na pequena Republic Pictures e para lá foi Fred Graham, onde conheceu John Wayne, de quem passou a ser dublê quase oficial, isto apesar de Wayne ser um pouco mais alto. Na Republic Graham apareceu em duas centenas de filmes pois era tanto dublê como ator em pequenos papéis. Como ator, o rosto marcante de Fred Graham foi visto em “Legião Invencível”, “O Álamo”, “Onde Começa o Inferno”, “Marcha de Heróis” e em dezenas de outros filmes. Não por acaso, nos filmes acima citados Graham contracenou com John Wayne, de quem era amigo. E o Duke produzindo “Sete Homens Sem Destino” possibilitou a Fred Graham uma participação maior nesse westerns, interpretando um dos capangas de John Larch. Os últimos filmes de Fred Graham foram “Bandoleiros do Arizona” (1965), com Audie Murphy e “Meu Nome é Jim Kane” (1972), com Lee Marvin e Paul Newman. Fred Graham faleceu em 1979, aos 70 anos de idade.

Chuck Roberson – Quando Fred Graham deixou de dublar John Wayne, quem o substituiu foi Charles Hugh Roberson, mais conhecido como Chuck Roberson. Da mesma altura de John Wayne (1,93m), Chuck confundia o público que acreditava estar vendo o Duke nas cenas difíceis, tamanha a semelhança física. Chuck Roberson nasceu em 1919, filho de um rancheiro do Texas e crescendo numa fazenda de gado era um cowboy autêntico quando conseguiu emprego como segurança na MGM. Fred Kennedy, um respeitado dublê, conhecendo as qualidade de Chuck o levou para a Republic Pictures. Nesse estúdio Chuck dublou John Wayne em “O Lutador de Kentucky/Estranha Caravana”, continuando a substituir o Duke nas cenas arrojadas pelos próximos 30 anos, até “O Último Pistoleiro”, em 1976. Chuck Roberson dublou também Robert Mitchum, Rock Hudson, Gary Cooper, Charlton Heston, James Stewart e muitos outros atores altos como ele próprio. Na década de 50 Chuck Roberson passou a fazer cada vez mais filmes como ator, sempre em pequenas participações, como a de um dos padrinhos do casamento em “Rastros de Ódio”. O outro padrinho foi Chuck Hayward, também dublê. Roberson era apelidado de ‘Bad Chuck’ porque gostava de beber e jogar pôquer com John Wayne; Hayward era o ‘Good’ Chuck pois gostava de ir dormir cedo. Chuck Roberson escreveu uma autobiografia chamada “The Fall Guy”, em 1980 e veio a falecer em 1988, aos 69 anos de idade.

Cliff Lyons – Nascido em 1901 em Dakota do Sul, Clifford Williams Lyons cresceu no Tennessee e após viver numa fazenda, aos 20 anos montou uma empresa de rodeios. Em seguida Clifford foi para a Califórnia e passou a atuar em filmes como nas primeiras versões de “Ben-Hur” e “Beau Geste”, ambos em 1927. Com o advento do cinema falado Clifford transformou-se em stuntman, substituindo grandes cowboys como Tom Mix, Ken Maynard, Buck Jones e Johnny Mack Brown. Em 1948, já conhecido como Cliff Lyons, o ex-ator fez amizade com John Ford com quem trabalhou em muitos filmes. John Ford lembra John Wayne, de quem Lyons ficou também muito amigo. A qualidade do trabalho de Cliff Lyons na coordenação de sequências de ação o levou a ser diretor de segunda unidade de muitos filmes, entre eles “O Álamo”, “Os Comancheiros”, “Gigantes em Luta”, “Juramento de Vingança”, “Jake, o Grandão” e também filmes de outros gêneros com muita ação. Entre estes filmes Cliff Lyons foi responsável por “Sangue de Bárbaros”, “Taras Bulba”, “Gengis Khan” e outros. Assim como Fred Graham e Chuck Roberson, Cliff Lyons ganhava um dinheirinho extra fazendo pequenas participações em filmes e uma delas, com menos de 30 segundos, foi interpretando um dos sete homens do westerns de Boetticher. Cliff Lyons, que atuou em mais de 300 filmes como stuntman, de 1924 a 1973, faleceu aos 72 anos de idade, em 1974.


John Beradino – O cinema norte-americano sempre aproveitou a fama de atletas para fazer deles astros da tela. A tenista campeã Althea Gibson atuou em “Marcha de Heróis”; o astro do American Football Joe Namath fez diversos filmes; Jim Brown, outro grande nome do American Football fez 53 filmes em sua carreira como ator; mesmo o Arnold Scharzenegger, não exatamente um atleta (e não exatamente um ator), tornou-se milionário com os filmes que fez. John Beradino foi um dos mais famosos jogadores de baseball dos anos 40, nos Estados Unidos, e sua fama lhe abriu as portas para o cinema mas não foi suficiente para fazer dele um astro da tela. Os primeiros trabalhos como ator de Beradino foram pequenas participações em “Meu Ofício é Matar” (com Frank Sinatra), “A Besta Negra” (com Lee Marvin) e “Vidas Amargas” (com James Dean). E durante toda sua carreira Beradino seguiu em pequenos papéis nos quais raramente recebia crédito. Foi creditado, porém, em “Sete Homens Sem Destino”. Atuando muito na TV, Beradino chegou a se destacar em alguns episódios da série “Hospital”, interpretando um médico. John Beradino nasceu em Los Angeles em 1917 e faleceu em 1996, aos 79 anos.

John Phillips - O outro bandido que Randolph Scott mata no início de “Sete Homens Sem Destino”, após tomar café com eles num abrigo durante uma noite chuvosa, é John Phillips. Nascido em 1919, em Los Angeles, John Phillips estreou no cinema em 1946, como xerife em “Delegado de Saias”, da série de Roy Rogers para a Republic Pictures. A seguir Phillips atuou no filme noir “Anjo Diabólico”, estrelado por Dan Duryea, Peter Lorre e Broderick Crawford. Phillips poderia ter aprendido muito com esses três mestres da maldade, mas não foi o que aconteceu durante toda sua curta carreira como ator, na qual nunca conseguiu destaque. Um ótimo exemplo das participações de John Phillips no cinema é em “Seminole”, em que interpreta um dos membros do tribunal militar que julga o Tenente Lance Caldwell (Rock Hudson). Phillips faz apenas figuração e não tem sequer uma linha de diálogo. Em “Sete Homens Sem Destino” ele tem pelo menos uma frase antes de morrer.

Steve Mitchell - Randolph Scott mata dois bandidos no cenário de Alabama Hills, em Lone Pine, antes de se defrontar com Lee Marvin. Um desses bandidos é Steve Mitchell, ator que em sua carreira, a exemplo de John Phillips e John Beradino, nunca alcançou destaque. Nascido em Nova York em 1926, Mitchell pode ser lembrado como o atendente do balcão de viagens da American Airlines no final do clássico “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. Estrelado pelo mesmo Sterling Hayden, John Phillips atuou em “Reinado do Terror” no qual fez uma ponta. A maior parte dos trabalhos de Mitchell no cinema foram pequenas participações, como em “Os Cinco de Chicago”, de Roger Corman, em que interpreta um xerife. No cinema e na TV, sempre em aparições pouco lembradas, Steve Mitchell encerrou sua carreira em 1979, vindo a falecer aos 80 anos em 1927.

Don 'Red' Barry e Lee Marvin, dois outros bandidos de "Sete Homens Sem Destino".
Estes dois não fazem parte do grupo procurado por Randolph Scott.